Entre 2003 e 2006, Nicchio assinou regularmente a coluna Prateleira Cultural na revista Sinal Verde, além de publicar textos em outras seções. Ao todo, este arquivo reúne 22 textos autorais preservados desse período.
A curadoria e os textos cobriram Ramones, Kurt Cobain, Seu Jorge, banda 365, cinema brasileiro, televisão, literatura, rádio e espaços culturais, além de temas digitais como Skype e VoIP, Google Earth, RSS/XML, rádio via internet e Orkut.
A combinação de crítica cultural e cultura digital mostra como a tecnologia já fazia parte de sua pauta editorial antes da especialização profissional em Search.
Prateleira Cultural — textos publicados
Arquivo cronológico das colunas assinadas por Marcelo Nicchio na Revista Sinal Verde. Ortografia, concordância e nomes próprios foram normalizados para esta edição digital, preservando o conteúdo, o tom e a voz dos textos originais.
Cada transcrição é acompanhada pelo fac-símile da página impressa correspondente; clique na miniatura para consultar o original em tamanho ampliado.
2003
Desespero
Quem se lembra da “Família Trapo”? Se você tem mais de 40 anos, talvez tenha tido a oportunidade de assistir a algum episódio. Na verdade, no meio de inúmeros episódios da Família Trapo durante muitos anos, só sobraram dois para contar história. Ronald Golias, nos seus melhores momentos, infelizmente, foi queimado! Exatamente, queimado. A “Família Trapo” não poderá ser assistida por novas gerações, pois ela e grande parte dos programas de TV produzidos na época acabaram se perdendo em um grande incêndio no arquivo da TV Record, há muitos anos.
A TV Bandeirantes também sofreu com um grande incêndio. Muita coisa se perdeu no meio do fogo. Muitos programas, noticiários, imagens de arquivo, até a festa de inauguração... O que restou de registro da inauguração da TV Bandeirantes foram algumas fotos em preto e branco e só. Record, Bandeirantes, Tupi, entre outras, sofreram prejuízos incalculáveis. A memória cultural de nosso país é a grande vítima com tudo isso. Seja por descaso, incompetência ou até mesmo por incapacidade técnica, na época, de se ter uma estrutura que preservasse todo o material de arquivo.
Escrevo tudo isso para lembrar que muita coisa já se foi. Mas o pior é que muita coisa está sendo destruída neste exato momento. É verdade, a TV Cultura de São Paulo, ganhadora de inúmeros prêmios internacionais por sua programação de extrema qualidade educativa, está desgravando material (fitas) de arquivo para copiar programas novos que estão sendo produzidos atualmente. Esta emissora não tem dinheiro nem para comprar novas fitas.
Vários registros e programas já foram desgravados. Marisa Monte, quando era apenas uma principiante em 1988, no programa Metrópolis; a série “Os Bichos”; vários documentários adquiridos da BBC de Londres; já não existem mais. Esta prática de apagar programas antigos para gravar os novos está sendo adotada há um ano e meio pela emissora, o que já representa uma perda considerável para a memória da televisão no país.
O acervo da TV Cultura é um dos mais importantes e extensos do Brasil. Contém entrevistas com muitos dos principais políticos do país, reportagens e documentários sobre fatos nacionais e internacionais, além de uma infinidade de programas produzidos pela emissora, caso dos internacionalmente premiados “Mundo da Lua” e “Castelo Rá-Tim-Bum”.
A emissora está “sucateada”, com equipamento que não funciona nem com reparos, qualidade totalmente analógica (considerando que nas emissoras comerciais só se produz em qualidade digital atualmente), 300 funcionários demitidos, uma velha caixa-d’água de 240 mil litros ameaça desabar e o sinal da programação dentro das principais cidades do interior do Estado de São Paulo já foi cortado.
Não podemos permitir que a falta de comprometimento do Estado com a cultura do nosso país continue desta forma. A situação da TV Cultura é fruto do descaso do governo do Estado. Algo precisa ser feito, urgentemente.
Peço socorro pela vida da TV e da nossa cultura!!
Hey Ho – Let’s Go!!! Enfim Música!
Sou um grande fã dos Ramones. Aprendi a ouvir, desde pequeno, Beatles, Rolling Stones, Johnny Rivers e, quando descobri o que me agradava de verdade além dessas influências, comprei todos os discos dos Ramones. Finalmente tinha descoberto o rock.
Joey Ramone, um cara feio pra dedéu, foi o único ídolo que, quando eu vi de perto (assistindo a um show no Olympia), me fez sentir como se fosse uma criança vendo pela primeira vez o Mickey Mouse na Disneylândia. Eu estava a poucos metros de um mito.
Em abril de 2001, fui capa do caderno Folhateen, da Folha de S.Paulo, sob o título “Órfãos do Rock”, isso na mesma semana em que Joey Ramone, vocalista dos Ramones, tinha falecido de câncer, em Nova York.
SÃO PAULO — QUARTA-FEIRA — 23 JULHO/2003 — 14h30.
Ouvindo rádio no meu carro, parado no trânsito, começa a tocar “I Wanna Be Sedated”, grande clássico dos Ramones.
— Ué, mas não são os Ramones tocando, é bem parecido, mas...
OFFSPRING? Sim. Uma das mais famosas bandas de rock da atualidade regravando aquele clássico que, quando eu era adolescente, gostava de fazer os vizinhos — não só do meu prédio como os do prédio em frente — ouvirem também. Fui pesquisar.
We’re a Happy Family — Tribute to Ramones.
Um CD para ouvir no trânsito, em uma festa, na balada ou até em um churrasco (de roqueiros, é claro! Hehe).
Nove entre dez bandas de rock no mundo foram ou são influenciadas pelos Ramones.
Por isso, meus amigos, neste CD você só vai encontrar os melhores clássicos regravados por Red Hot Chili Peppers, Eddie Vedder (Pearl Jam), Rob Zombie, Metallica, U2, Kiss, Green Day, Garbage, Marilyn Manson, Pretenders, Rancid, Offspring, Tom Waits, entre outros!
Como eu sou muito gente fina, vou dar o “caminho das pedras” para vocês. Aqui vai a lista das principais músicas do CD:
- “Havana Affair” — Red Hot Chili Peppers
- “Blitzkrieg Bop” — Rob Zombie
- “I Believe in Miracles” — Eddie Vedder & Zeke
- “53rd & 3rd” — Metallica
- “Beat on the Brat” — U2
- “Do You Remember Rock ’n’ Roll Radio?” — Kiss
- “The KKK Took My Baby Away” — Marilyn Manson
- “I Just Wanna Have Something to Do” — Garbage
- “Outsider” — Green Day
- “Sheena Is a Punk Rocker” — Rancid
- “I Wanna Be Sedated” — Offspring
Um CD que você com certeza vai deixar no “Repeat”, rolando do começo ao fim.
Aqui já está rolando desde o dia 23. Vamos ver até quando eu e meus vizinhos vamos aguentar.
Até a próxima edição!
Cidade de Deus chega às locadoras
Dois dias antes do fechamento desta coluna, chegou às locadoras um dos maiores sucessos do cinema nacional, o filme “Cidade de Deus”.
Tentei alugar ou comprar nas locadoras do meu bairro. Impossível. Também, uma enorme ingenuidade da minha parte: fui à locadora em um fim de semana, dois dias depois de o filme ter chegado às prateleiras em todo o país.
Imagino como devem estar as atendentes das locadoras hoje. Quando você mal começar a falar o nome do filme:
— Por gentileza, estou procurando o filme Ci...
Ela já te interrompe com aquela cara de quem já falou a mesma coisa umas 200 vezes no mesmo dia:
— Não tem, está tudo fora.
— E pra co... (comprar, eu ia dizer)
— Também não tem, já vendemos tudo!
Também não é pra menos: o sucesso do filme “Cidade de Deus” foi resultado de um aprimoramento técnico e da linguagem do cinema nacional. O filme conseguiu um roteiro adaptado magnífico, original, abordando um tema mais do que polêmico e forte.
Alguns já disseram que o diretor do filme, Fernando Meirelles, seria o nosso “Tarantino” brasileiro. Exagero ou não, ele conseguiu dirigir um filme para prender a atenção do início ao fim, em certos momentos chocar e fazer os olhos brilharem devido à estética “retrô” do filme.
A história se desenvolve em torno do personagem Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem pobre, negro e muito sensível, que cresce em um universo de muita violência. Buscapé vive na Cidade de Deus, favela carioca conhecida por ser um dos locais mais violentos da cidade. Amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, Buscapé acaba sendo salvo de seu destino devido ao seu talento como fotógrafo, o qual permite que siga carreira na profissão. É através de seu olhar atrás da câmera que Buscapé analisa o dia a dia da favela onde vive, onde a violência aparenta ser infinita.
Você deve estar se perguntando: mas este filme já saiu de cartaz no cinema, foi lançado no ano passado e só agora ele está falando sobre o filme?
Claro que não! Antes de qualquer explicação, vale a pena avisar que este filme é um divisor de águas do cinema nacional. Depois dele, acho difícil algum diretor querer e conseguir espaço nos refletores da mídia com qualquer “historinha” inspirada em temas mais do que incompreensíveis ou distantes do nosso cotidiano.
Fora isso, se você não conseguiu assistir na grande tela por não ter paciência com enormes filas e cinema lotado, agora você tem essa oportunidade.
E pode se preparar, pois a Miramax, distribuidora do filme no exterior, promete uma grande campanha publicitária e uma distribuição agressiva nas salas de cinema dos EUA e Europa.
Isso porque os chefões da Miramax acreditam que, em 2004, Cidade de Deus pode não só ser indicado como levar para o Brasil o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro!!
Se eles acreditam, acredite neles e em mim. Alugue ou compre este filme.
Pelo jeito vou ter que recorrer à internet para comprar o filme. Espero que você tenha mais sorte. Até a próxima!
Trilha sonora da coluna: “De Costas para o Mar” — RODOX (WEA — 2003).
A Televisão e o “Domingo Ilegal”
Bom, todo mundo já está cansado de ouvir falar na farsa que o programa Domingo (I)Legal e o SBT armaram sobre o PCC, com ameaças de morte etc... Certo?
A coluna Prateleira Cultural não poderia deixar passar batido isso, até porque todos nós somos vítimas, direta ou indiretamente, da falta de escrúpulos, tudo por audiência, por dinheiro, por um círculo vicioso que há décadas impera na TV.
Este assunto veio à tona por causa das ameaças de morte feitas por atores se fazendo passar por bandidos da facção PCC. Mas calma lá... Essa não foi a primeira vez e nem será a última. Quem se lembra do “Táxi”? E as pegadinhas então? Alguém ainda acredita?
O SBT infelizmente se tornou, ao longo do tempo, uma “multinacional” de “pegadinhas”, se é que você me entende...
Uma emissora que aboliu o jornalismo de sua programação, que muda horários e cancela apresentações de filmes e seriados sem prévio aviso, cujos programas mais assistidos são os programas de auditório de qualidade duvidosa, onde as atrações principais são testes de DNA de gente desesperada, concurso da Loira do Tchan (!?), crianças dançando na “boquinha da garrafa”, pagodeiros e sertanejos sendo acordados etc., etc., etc...
É uma pena que uma parte da população cabeça de vento ainda se divirta com esse tipo de atração, que, na minha humilde opinião, deveria ter espaço apenas no canal 9.543-H de uma operadora de cabo desconhecida.
No caso do “Domingo Ilegal”, o mais curioso é que todas estas atrações “maravilhosas” e “inocentes” são apresentadas por um sujeito de fala mansa, cabelo curtinho, barba feita, voz fina, terno Armani, generoso e bondoso, que dá presentes para os necessitados e até chora quando se veste de mendigo. Carinhosamente chamado de GUGU, ele é o netinho que toda vovó gostaria de ter...
Daqui a pouco o programa dele termina e entra no ar o programa do “patrão”, sr. Silvio Santos, um “gênio” da televisão, “gênio” do marketing, “gênio” de vendas... Em parte, isso é certo, sim. Mas imaginem só que o grande exemplo do “Padrão SBT de Qualidade” se teve em julho deste ano, quando o presidente da holding disse, nos EUA, que tinha só mais seis anos de vida e que estava numa cadeira de rodas. Conseguiu ser manchete de todas as revistas e jornais. Mais uma pegadinha, hein? Esse pessoal do SBT, viu... Danadinhos!! Estamos falando de “gênios”, leve em conta isso.
No caso dele, Silvio Santos, que teve uma das maiores ascensões registradas na nossa história, saiu do limbo, como camelô, e hoje é dono de uma das maiores holdings do Brasil. Uma pena que, com todo este dinheiro que hoje ele e as empresas dele têm, não conseguiu mudar muito o produto oferecido. O SBT hoje é, na realidade, um veículo poderosíssimo que vende as mesmas quinquilharias que ele vendia quando era camelô, só que em larga escala.
Não vamos malhar apenas o SBT, como se as outras redes de TV fossem uma maravilha; é daí para pior. Mas, num país como o nosso, onde se faz TV para tolos de cara alegre, se tem talvez uma das TVs por assinatura mais caras do mundo, ou seja, não tem para onde fugir.
Há alguns meses, escrevi aqui, na Prateleira Cultural, que a TV Cultura não tinha dinheiro nem para comprar fitas novas. Os programas estavam sendo gravados em cima de outros, acabando definitivamente com programas históricos e devastando parte da nossa cultura. Estou sem palavras.
VMB 2003 — Charlie Brown de novo!
Este ano a MTV está mais do que orgulhosa com o seu principal evento, o VMB — Video Music Brasil.
É, com certeza, a principal festa da música brasileira. Depois de oito festas, pela primeira vez, na 9ª premiação, a MTV foi líder de audiência na TV aberta por nove minutos e segundo lugar por 52 minutos durante o evento.
Sem contar, é claro, as atrações... oito shows, dezenas de artistas das mais variadas vertentes como convidados, milhares de ilustres na plateia, um evento gigantesco armado no complexo Anhembi.
Mas o que mais me chamou a atenção, além da festa, foi o fenômeno “Charlie Brown Jr.”.
Hoje esta banda, com influências de punk rock, hardcore, ska e hip-hop, consegue ser uma unanimidade no cenário musical nacional. Prestes a lançar o 6º álbum da carreira, o Acústico MTV, a banda Charlie Brown Jr. se infiltra em todas as mídias possíveis, pois o seu público é cada vez maior.
Participação no Fantástico, Casseta & Planeta, capa da revista Veja (como um dos 40 mais poderosos artistas brasileiros), garoto-propaganda da nova campanha da Coca-Cola, incontáveis participações em programas musicais, enorme lista de shows pelo Brasil, vários hits nas rádios brasileiras e agora ganha pela segunda vez o maior prêmio da festa da MTV, a Escolha da Audiência, com o clipe “Papo Reto”, e o Melhor Clipe de Rock com “Só por uma Noite”. Resumindo, vai: Sandy & Junior já era.
Eu acredito que mesmo os pré-adolescentes, idade em que ainda não despertaram para uma busca mais frenética de conceitos para os quais, em grande parte, os pais torçam o nariz, já estão cansados de artistas pasteurizados e conseguem captar com mais facilidade aquele artista que convence, que vende uma imagem real de si mesmo, alguém em quem eles consigam se ver, dialogar com o artista. Isso, com certeza, o vocalista Chorão, do Charlie Brown Jr., faz com muita competência.
A molecada se vê nele. Isso talvez seja a grande receita de sucesso, além, é claro, do valor artístico do trabalho (o que, na minha opinião, vem em primeiro lugar).
Já começa a tocar nas rádios o primeiro hit do álbum que ainda não foi lançado, a música “Vícios e Virtudes”. Esse próximo álbum faz parte do especial já tradicional da MTV, o “Acústico MTV”, em que a banda toca músicas inéditas e consagradas, trocando a guitarra e o baixo elétrico pelo violão e baixo acústico, ou seja, com a tomada desligada ou desplugada, como você preferir. Na MTV americana, este especial tem o nome de MTV Unplugged.
Com certeza, em pouco tempo, Charlie Brown Jr. ocupará a posição que poucas bandas de rock até hoje alcançaram. Se meus poderes de Mãe Dinah estiverem certos, acabará virando referência... e daí, meus amigos, talvez quem goste de rock verá uma cena no mínimo inusitada: Caetano Veloso dividindo o palco ou até mesmo regravando uma música dos garotos no seu disco. Já pensou? Hehehe. Não... esquece, melhor nem pensar nisso... Curta enquanto é tempo!!!
Bom, como já é de costume da nossa coluna, você vê abaixo a lista completa dos premiados do VMB (Video Music Brasil), a maior festa da MTV brasileira.
Categorias votadas pela audiência da MTV
- Melhor videoclipe Pop: Skank — “Dois Rios”
- Melhor videoclipe de Rock: Charlie Brown Jr. — “Só por uma Noite”
- Melhor videoclipe de MPB: Gilberto Gil — “Three Little Birds”
- Melhor videoclipe de Rap: Marcelo D2 — “Qual É”
- Melhor videoclipe Independente: Ratos de Porão — “Próximo Alvo”
- Melhor videoclipe de Música Eletrônica: Fernanda Porto e DJ Patife — “Sambassim”
- Melhor Banda/Artista Revelação: Detonautas Roque Clube — “Quando o Sol Se For”
- Internacional: Linkin Park — “Somewhere I Belong”
- Escolha da Audiência: Charlie Brown Jr. — “Papo Reto”
Categorias técnicas
- Melhor Edição: Pato Fu
- Melhor Fotografia: Sepultura
- Melhor Direção de Arte: Gilberto Gil
- Melhor Direção: Marcelo D2
- Videoclipe do Ano: Marcelo D2
- Melhor Website: Nando Reis
Matrix Revolutions
Se você estiver lendo esta coluna antes do dia 5 de novembro, saiba que pessoas do mundo inteiro, neste momento, estão extremamente ansiosas para o lançamento mundial de Matrix Revolutions, o último filme da trilogia Matrix.
O mundo inteiro estará em fila aguardando o lançamento de Matrix Revolutions. Imagina o caos!!! Aqui no Brasil, então, comprar algo no shopping será mais complicado ainda.
Seria ótimo que a revista Sinal Verde este mês entrasse em circulação um pouco depois do habitual, pois assim daria para assistir ao filme e contar toda a história para vocês.
Mas, como não dá, vou tentar adiantar alguns detalhes e dar algumas dicas também.
Primeiro: se você não assistiu nem ao primeiro Matrix, nem ao Matrix Reloaded, passe longe do cinema. Vai jogar dinheiro fora e provavelmente você vai sair falando que é o filme mais sem sentido que você assistiu na vida. Isso porque já é impossível entender a segunda sequência (Matrix Reloaded — 2003) sem ter assistido ao primeiro (The Matrix — 1999).
A última sequência da trilogia, Matrix Revolutions, nada mais é do que uma continuação fiel à história da sequência anterior. Produziram ao mesmo tempo a segunda e a terceira sequência e cortaram o filme no meio; podemos simplificar assim para você.
O primeiro filme (Matrix, 1999) revolucionou o cinema com efeitos visuais sem precedentes, novos conceitos de animação, uma história vendendo a ideia de que nenhum de nós conhece a realidade, que o nosso mundo é todo controlado por programas e tudo não se passaria de uma ilusão criada pelos mesmos. Tudo seria já programado e viveríamos sem consciência do que nos controla. A história de Matrix é genial, tanto que foi capa até da revista Superinteressante, nos questionando que aquilo até poderia ser verdade. Esta história possui influências de filosofias orientais, contos cyberpunk, histórias em quadrinhos, religiões, entre outras. Você encontra de tudo um pouco nas referências que a história de Matrix revela, levando até os mais céticos a acreditarem que poderia ser possível estarmos vivendo controlados por máquinas, programas e sistemas em um mundo fictício, feito para que nossos corpos fossem mantidos como geradores de energia, enquanto nossa consciência seria totalmente envolvida nesse mundo virtual. Absurdo? Talvez. Mas que é muito louco, é! Você até pensou na possibilidade, fala sério! HE-HE-HE...
Esse “devaneio” dos irmãos Wachowski, criadores, roteiristas e diretores da trilogia Matrix, fez com que Matrix 1, com um orçamento tímido (para os padrões de Hollywood), fosse um dos filmes mais bem-sucedidos da história, tanto em lucros obtidos como em repercussão e na legião de fãs que se criou em torno dessa nova estética.
No segundo filme, o foco da história muda um pouco, e eles viajam ainda mais pela “Hellman’s Air Lines”, se é que você me entende... Tudo, ou grande parte do que eles haviam afirmado no primeiro filme, é desmentido, deixando uma grande expectativa para este terceiro e último episódio da trilogia. Mais do que a história, esperam-se novos efeitos visuais revolucionários e surpreendentes, trazendo uma enorme expectativa não só aos fãs do filme, como uma expectativa ainda maior para o estúdio e os produtores de Matrix quanto à renda que irão garantir para os cofrinhos. É ver para crer.
Mais uma vez, repito: se você não assistiu aos dois filmes anteriores, passe longe do cinema ou assista a outro filme. Caso contrário, você achará que Matrix é o filme mais sem sentido de que você teve conhecimento e sairá do cinema xingando tudo e a todos, sentindo-se enganado. Com razão, né? Agora, se você assistiu, quem sabe a gente se encontra na fila, ok? Abraços e até a próxima!!
Encontros de Natal
Olá, como estamos em clima de Natal, este mês a coluna Prateleira Cultural vai falar sobre o lançamento do filme “Simplesmente Amor”. Afinal, NATAL e AMOR têm tudo a ver, não?
Propositalmente lançado nos EUA e na Inglaterra, simultaneamente, o filme inglês Love Actually (Simplesmente Amor) é uma comédia romântica que aborda encontros e desencontros de nove casais no mês de dezembro, com todo o clima de Natal londrino.
Escrito e dirigido pelo genial Richard Curtis, que já escreveu “Um Lugar Chamado Notting Hill”, “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Diário de Bridget Jones”, “Mr. Bean”, entre outros, você já consegue imaginar que não estamos falando de qualquer filme.
No seu debut como diretor, Richard Curtis consegue reunir ótimos atores como Hugh Grant, Emma Thompson, Laura Linney e Rodrigo Santoro, em sua segunda aparição mundial, agora falando, mas pouco.
“Simplesmente Amor” é o tipo de filme em que, além de você se emocionar com o clima romântico dos casais, poderá dar muita risada de situações hilárias entre eles, combinação que já é marca registrada do diretor.
O filme conta com uma ótima trilha sonora, provando que a Inglaterra pode, sim, ser tão influente culturalmente para o resto do mundo quanto os EUA, ou até mais, eu diria.
Richard Curtis, ótimo roteirista que é, tem um dom especial de aliar romance e humor e, além disso, no caso deste filme, nos mostrar situações comuns, mas com uma narrativa muito delicada e sensível a respeito do que é o amor, do quanto o amor é importante nas nossas vidas e de que, no Natal, nos tornamos mais suscetíveis, deixando de lado valores que durante o ano inteiro as pessoas encaram como prioritários e que, incondicionalmente, fazem com que vivamos nesta sociedade intolerante, burra e mesquinha.
O começo do filme é narrado com imagens, mostrando que o lugar preferido do roteirista para observar as pessoas seria o aeroporto, pois lá é possível ver as maiores demonstrações de amor: dos reencontros, das despedidas, dos “até logo” entre pais e filhos, maridos e esposas, entre velhos amigos, entre namorados ou apenas entre conhecidos.
Isso nos faz refletir sobre o quanto o amor é fundamental nas nossas vidas e faz com que nos indaguemos sobre como a nossa cultura e essa nova visão de mundo em que estamos todos inseridos ofuscaram a espontaneidade das pessoas, em que demonstrações de carinho, de preocupação, de solidariedade sejam patéticas de se fazer. Mas por quê?
É engraçado como, nesta nova visão, dizer “Eu te amo” ou se importar com alguém é algo ultrapassado, piegas e totalmente fora de propósito. O câncer do mundo e das almas é justamente a falta de amor. É e será cada vez pior enquanto não mudarmos esta nova forma de interpretar nossas vidas. “O mundo moderno não tem tempo para o amor.” “Dinheiro move o mundo.”
Mas, enquanto houver a arte, o cinema, o teatro, a literatura e a música, existirá uma luz no fim do túnel.
Só a arte é capaz de subverter valores tão equivocados quanto os que são exaltados pelo mundo moderno.
Filmes como “Simplesmente Amor”, escrito e dirigido por Richard Curtis, fazem com que paremos por duas horas na nossa vida, dentro do cinema, e reflitamos que amar depende apenas de nós mesmos. De nos permitirmos amar.
Espero que você tenha curtido e acompanhado minha coluna este ano. Para 2004 preparo grandes novidades para você. Logo no começo do ano, uma grande matéria!
Tenha um ótimo Natal e um 2004 com muita música, muito amor, conquistas e, é claro, com a arte na sua alma. Até lá!!!
2003–2004
Telefone é coisa do passado
Foi lançado um software fantástico que causará a mesma revolução para a telefonia que o formato MP3 causou para a música em todo o mundo.
Este software chama-se “Skype”. O Skype foi desenvolvido pelos mesmos criadores do “Kazaa”, software funcional e popular na internet que permite a troca direta de arquivos (programas, áudio e vídeo) entre computadores ao redor do mundo. Os criadores Niklas Zennström e Janus Friis, junto com uma equipe de programadores da Estônia, utilizaram a mesma tecnologia do Kazaa para tornar possível uma nova experiência de qualidade na telefonia via web. A informação é transmitida diretamente de um computador para o outro, utilizando o formato P2P (peer to peer), ou, como você preferir: ponto a ponto, ou IP com IP. O IP de um computador transmite diretamente os dados para o IP do outro computador, não passando por nenhum servidor, o que torna a “troca” de informações muito mais rápida, nítida e confiável.
Por exemplo: em uma conversa pelo Skype, não há atraso (delay) e a nitidez da voz é muito superior à do telefone. Poderia comparar a qualidade de voz à de um locutor em uma transmissão de rádio FM, por exemplo. Outra coisa: a distância geográfica não influi na qualidade de áudio no Skype. O que torna a qualidade boa ou ruim é a conexão à internet e o computador que você usa. Em alguns testes, tive a mesma qualidade com um amigo que mora no mesmo bairro que eu e com um amigo que mora em Nova York. Detalhe: os dois utilizavam conexão ADSL (banda larga) e sistema operacional Windows XP. O ideal é que você tenha um headset (fones com microfone), que você pode comprar em qualquer loja de informática, tendo inúmeras opções. Os mais simples custam a partir de 12 reais.
O Skype foi desenvolvido para ser um substituto do telefone comum, pelo menos com as pessoas que utilizam a internet durante o dia no trabalho e em casa. É um serviço gratuito. Em breve, o Skype poderá cobrar uma pequena taxa mensal para ligações via web para qualquer telefone, inclusive fixo e celular, e também disponibilizar serviço de caixa postal via voz, como se fosse uma secretária eletrônica quando você não estiver, podendo substituir o e-mail para recados triviais. Mas as ligações entre computadores via web, segundo o que publicam no site, serão para sempre gratuitas. Meu amigo, se você utiliza a internet em casa ou no seu trabalho, estará perdendo dinheiro caso não instale o Skype. Diversas empresas hoje, ao redor do mundo, já estão utilizando este software para se comunicar com seus clientes, fornecedores, filiais e principais contatos, economizando muito dinheiro no dia a dia, pois é uma comunicação sem fronteiras. Quanto mais contatos você tiver no seu Skype, maior será sua economia; portanto, acho uma boa você vender esta ideia para seus contatos, clientes, amigos, familiares, ou seja, para todo mundo. É só usar o Skype, você nunca mais irá largar.
Para empresas que tenham um website, o Skype também pode ser uma ótima ferramenta para abrir um canal de voz gratuito para o atendimento ao cliente. É uma ideia. Em tempos de ameaças de formação de cartel por parte das operadoras de telefonia e por cada vez gastarmos mais dinheiro em um serviço tão fundamental no nosso dia a dia, aprenda a driblar todo mundo instalando o Skype.
Download: www.skype.com/promotion/index.pt.html
Configuração mínima citada na publicação: Windows 2000 ou XP; 128 MB de RAM; processador de 400 MHz; 10 MB livres no HD; internet discada a partir de 33,6 Kbps ou banda larga; placa de som e headset ou caixas de som e microfone.
2004
A TV em estado de Pânico
A TV criou um antídoto contra ela mesma. E isso, em horário nobre dominical, acreditem. Este “antídoto” chama-se Pânico na TV, que vai ao ar todo domingo, a partir das 18h30, na RedeTV!
Você deve estar se perguntando: coisa estranha... elogios para um programa que vai em horário nobre, justo no domingo? É verdade. Emílio Surita e sua trupe, que há mais de dez anos comandam um dos programas mais ouvidos do rádio, o “Pânico”, onde não existem regras e o caos e o nonsense são pré-requisitos para um sucesso tão duradouro, incrementaram ainda mais a fórmula da “esculhambação” e do descompromisso e, há meses, garantem bons pontos de IBOPE na RedeTV!
Se você nunca assistiu, imagine o seguinte: humoristas de rádio com tarimba de fazer piadas colegiais, rir e ridicularizar tudo, inclusive a si mesmos. Imagine um dos imitadores do Pânico que, além de imitar perfeitamente a voz e os gestos de Silvio Santos, se veste como ele e usa uma dentadura disforme com gengivite em estado acentuado.
Outro imitador/humorista eventualmente aparece caracterizado como Gugu Liberato, assumindo um suposto homossexualismo nos trocadilhos, com uma ficha do programa “Domingo Legal” na mão e ensinando como queimar uma rosquinha no micro-ondas, literalmente. É, pode acreditar.
Um dos quadros de maior polêmica do programa são as gravações externas em festas badaladas, em que Rodrigo Scarpa, o “Repórter Vesgo”, uma espécie de Ernesto Varela (interpretado por Marcelo Tas nos anos 80) do mal, tem por principal função desconcertar, constranger e ridicularizar “pseudocelebridades” recém-saídas de reality shows com perguntas do tipo: “Quem é você?” ou “Você de novo? Você é arroz de festa, hein, tá louco(a) pra aparecer!”. E, quando ele se propõe a dar “voz” às pseudocelebridades, consegue mesmo assim “sacanear”, desligando o cabo do microfone sem elas perceberem, enquanto explicam seu novo “projeto” como atriz/ator e modelo.
Outro quadro de repercussão do programa é “A Hora da Morte”, onde dublês fantasiados de morte assustam transeuntes com “brincadeirinhas” maldosas ao extremo, como jogar um punhado de baratas em cima de uma garota no ponto de ônibus. Tudo armado, claro.
Na TV, tudo é armado e eles fazem questão de provar esta verdade absoluta para o telespectador. Por exemplo, ultimamente surgiu uma moda nos programas policiais em que o helicóptero da emissora fica parado em cima de determinada região e o apresentador do programa pede para que as pessoas que estiverem assistindo comecem a “piscar” a luz de casa. Em cima disso, o Pânico não quis ficar para trás. Instalou quatro supostas câmeras em que o cenário parecia ser a região da Av. Paulista. Quando Emílio Surita pediu, de repente tudo começou a piscar. Foi incrível! Todos os prédios piscando. Então Emílio Surita fez mais um desafio: “Vou colocar uma música e quero que vocês todos acompanhem o ritmo sincronizando o ‘pisca-pisca’ da casa de vocês. Combine com o seu vizinho para não ficar fora de compasso, hein!”. O espetáculo da audiência fez justiça a Emílio Surita. As luzes dos apartamentos do prédio localizado acendiam e apagavam da base até o topo acompanhando o ritmo da música, parecendo um conjunto de LEDs de um microsystem. Que fantástico!! É claro que tudo isso é mentira, uma “tiração de sarro”, um efeito criado por uma tecnologia eletrônica facilmente disponível por qualquer programa de televisão.
É assim, com toda essa ironia e cinismo, que o programa Pânico na TV e seus mais do que criativos humoristas conseguem ser subversivos contra aquela paranoia pasteurizada que faz parte dos programas de auditório dominicais.
Para terminar o programa, eles sempre contam o final dos dois filmes que serão exibidos posteriormente na Globo e no SBT. Isso, claro, preocupados com sua comodidade, para você poder dormir mais cedo, tranquilo, não se preocupar em ver os filmes até o final e acordar segunda-feira muito mais disposto. É esta a intenção do pessoal do Pânico.
É a TV contra si mesma. Anarquia televisiva, esculhambação, exagero, programa infame, nonsense, humor barato, produção “bagaceira”, chame como você quiser. O fato é que um programa que bebe nas fontes de “Monty Python”, “Perdidos na Noite”, “TV Pirata”, “Casseta & Planeta” e, mesmo assim, consegue ser original e muito divertido, com uma produção precária, contando apenas com o grande talento desta equipe de humoristas, ultrapassando quase todos os limites da etiqueta, dos bons costumes e do chamado “politicamente correto”, consegue surpreender e trazer algo de novo nos fins de tarde de domingo.
“Pânico na TV” — Prêmio APCA 2003, categoria Revelação. Domingos, a partir das 18h30 — RedeTV!
Cantamos a Bola!!
Olá! Não, não... nossa coluna não passou a ser sobre sinuca, fica tranquilo.
Este título tem sentido. Na verdade, o título é “Cantamos a Bola”, pois na nossa coluna de agosto (capa Sérgio Reis) nós havíamos anunciado o lançamento do filme “Cidade de Deus” em DVD e VHS e, ao mesmo tempo, sua disponibilização nas locadoras de todo o Brasil.
Naquele mesmo artigo, descrevi que este filme era um filme histórico, um divisor de águas da filmografia brasileira. Ok! LEMBREI AINDA QUE: A MIRAMAX (distribuidora internacional do filme) ESTARIA REINVESTINDO MILHÕES NO MARKETING DO FILME NOS EUA E NA EUROPA, POIS O FILME NÃO HAVIA SIDO BEM ACEITO PELA ACADEMIA E NÃO FOI INDICADO PARA NENHUMA CATEGORIA EM 2003.
Concluindo meu texto: “Eles estão reinvestindo toda essa grana e fazendo uma nova campanha de publicidade, pois eles acham o filme fortíssimo para concorrer e até ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro”. Ihhh... o que será que deu na Academia, hein??????
Foi melhor do que eu esperava, meu!!!
Foi melhor do que nós esperávamos.
Foi infinitamente melhor do que Fernando Meirelles, o diretor do filme, esperava. Quatro indicações para o Oscar, e todas indicações em categorias de gente grande. “Que” filme estrangeiro o quê, sai pra lá! Estamos concorrendo em categorias onde nossos “oponentes” são o que há de mais rico na indústria cinematográfica americana e mundial. Como disse o próprio diretor, só sendo indicado nestas QUATRO (!) categorias já dá para ficar “bobo-alegre”.
Indicado para Oscar de Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição (Montagem), “Cidade de Deus” já foi relançado às pressas nos cinemas dos EUA e está sendo relançado em todo o Brasil também. Vale a pena!
O Brasil nunca levou um Oscar. Não vale a pena lembrar que “O Beijo da Mulher Aranha” levou como melhor ator (William Hurt), pois ele não é brasileiro, além de o filme ter sido todo feito, produzido e financiado no exterior, e Hector Babenco, o diretor “brasileiro”, não é tão brasileiro assim, é argentino. Levar as quatro indicações eu acho praticamente impossível, pois concorreremos apenas com “peixes grandes”, superproduções como “O Senhor dos Anéis”, o tipo de filme industrializado que parece que foi feito apenas para ganhar o Oscar. Parece que, quando rodaram a última cena, colocaram um selo no rolo do filme: Indicado ao Oscar 2004.
Segundo “especialistas da área” e a grande crítica, nossas maiores chances estão em Melhor Edição (Montagem) e Melhor Roteiro Adaptado. Se ganharmos em fotografia será sorte e, ainda mais, se ganharmos em Melhor Diretor, será uma em um milhão, isso levando em conta a concorrência fortíssima que temos ao lado.
Agora aposto que, na mais pessimista das minhas opiniões, ao menos um Oscar a gente leva com “Cidade de Deus”, e o prêmio mais “fácil”, segundo quase todo mundo que tem escrito sobre o filme, seria o de Edição (Montagem).
Sendo assim, teremos então o nosso genial Fernando Meirelles com toda a sua equipe, os responsáveis por nossa primeira estatueta. Não é o máximo? Reza!
Indicações ao Oscar 2004 citadas na coluna
Melhor Direção: Cidade de Deus, Fernando Meirelles · O Senhor dos Anéis — O Retorno do Rei, Peter Jackson · Encontros e Desencontros, Sofia Coppola · Mestre dos Mares, Peter Weir · Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood.
Melhor Edição: Cidade de Deus · Cold Mountain · O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei · Mestre dos Mares · Seabiscuit.
Roteiro Adaptado: Anti-Herói Americano · Cidade de Deus · O Senhor dos Anéis — O Retorno do Rei · Sobre Meninos e Lobos · Seabiscuit.
Fotografia: Cidade de Deus · Cold Mountain · A Garota do Brinco de Pérola · Mestre dos Mares · Seabiscuit.
Cidade de Deus (City of God) — Dir. Fernando Meirelles. Reestreia nos cinemas dia 7 de fevereiro · Premiação do Oscar — 29 de fevereiro · Transmissão pela TV — SBT (ao vivo).
10 anos sem Kurt
Há dez anos, Kurt Cobain se matava em Seattle com um tiro na cabeça. Com este tiro, ele acabou com a própria vida, com a carreira de megastar e deixou milhões de fãs em todo o mundo órfãos de sua música, suas letras subjetivas e sua atitude anárquica. Marcas estas que fizeram com que o Nirvana fosse um ponto de referência, um divisor de águas para a música mundial.
Cobain teve uma infância pobre, filho de pais separados, criado por outros membros da família, era uma criança hiperativa a quem foram dados remédios para se concentrar melhor nos estudos e dormir à noite. Odiando os estudos, ele passava o tempo pintando, cantando e ouvindo bandas como Beatles, Monkees, Kiss, Sex Pistols, Black Flag e Clash. Mesmo assim, era uma criança tímida e, mais tarde, chegou a ser diagnosticado como maníaco-depressivo e, mais tarde, viciado de carteirinha em heroína.
Em seus diários pessoais, ainda muito jovem, Kurt escrevia: “Deus, me ajude, me ajude por favor. Eu quero ser aceito. Eu só preciso de uma turma, um público, uma razão para sorrir. Não vou sufocá-los. Visto qualquer tipo de roupa que vocês quiserem! Estou muito cansado de chorar e sonhar. Estou tão sozinho. Não tem ninguém aí? Por favor, se tem alguém, me ajude.”
Quando foi lançado o álbum Nevermind, em 1991, o Nirvana conseguiu mudar a história da música, tirando das paradas Whitney Houston, Michael Jackson e bandas de rock “farofa” da vida.
Nesse momento, o que eram antes bandas com vocalistas afeminados, cabelos com permanente, batom, maquiagem, deu lugar ao rock barulhento, camisas de flanela, jeito desleixado e letras que não tinham um sentido óbvio, mas representavam o que grande parte dos jovens dos anos 90 sentia e até então não podia dizer: a insatisfação com a mesmice, a solidão, muitas vezes a depressão e a falta de um motivo para viver, para sorrir.
Aparentemente, parece tudo muito comum, mas não para quem era jovem ou adolescente naquela época.
Os jovens “órfãos” de Kurt viam nele o amigo que não tiveram, dada tamanha identificação com suas letras e com toda a estética (ou falta dela) do Nirvana. Alguém que pôde manifestar por si mesmo e por eles todos os sentimentos até então reprimidos, de tudo o que já foi citado antes. Kurt era um deles. Era como eles.
E, às vezes, isso podia não ficar tão explícito em suas letras, mas seu público conseguia entender de uma forma mais pessoal, na musicalidade e nas melodias do Nirvana.
Para muitos jovens, chegar em casa e colocar um CD do Nirvana no quarto seria quase a mesma coisa que ligar para um amigo muito próximo, convidá-lo para visitar e, numa conversa, poder compartilhar seus problemas e angústias.
Isso não é uma opinião pessoal, isso se comprova. Minutos após o tiro ecoar pelo mundo, milhares de crianças, adolescentes e jovens ligavam e mandavam faxes para a MTV americana, para jornais e revistas, e davam depoimentos em rádios locais com mensagens assustadoras, de desespero, como se tivessem perdido um irmão mais velho, que os protegia.
Felizmente ou infelizmente, a música, dada a emoção com que é composta e interpretada, e a imagem do artista vinculada a isso tudo, provocam essa identificação sem limites por parte dos fãs e do público. Principalmente uma música tão emocional, densa e sincera como a música de Cobain. Com o Nirvana, tudo o que está sendo publicado no momento, da revolução musical em 91 aos dias de hoje, são fatos que vão se perpetuar. É como imaginar os anos 70 sem Beatles. Impossível ouvir a música de hoje sem a influência musical e mercadológica do Nirvana nos anos 90. Radiohead, Smashing Pumpkins, Green Day, Offspring, Queens of the Stone Age, Foo Fighters, Weezer, Stone Temple Pilots, Silverchair, o rock inglês recente, entre outras bandas, dificilmente você conheceria se não tivesse existido essa revolução chamada Nirvana.
Mas o que narrei, dos fãs e da identificação deles com Kurt e a música do Nirvana, é muito mais do que um grito de um fã descontrolado e inconsequente. Ouvir a música do Nirvana poderia significar quase a mesma coisa que ler o que foi escrito na noite anterior no próprio diário pessoal de confissões.
Se você não entende ou compreende a importância de Kurt Cobain para a música, vou deixar para finalizar com um depoimento de Álvaro Pereira Júnior, colunista da Folha e editor do Fantástico, da Rede Globo: “Kurt ressuscitou a importância de escrever bem uma canção, que não fosse só barulho ou atitude. Ele foi um dos alunos mais aplicados que John Lennon e Paul McCartney fizeram”.
Vitrine da Vida
É, é isso mesmo. Vitrine da vida na internet. A internet, por si só, é quase uma vitrine da vida de alguém. Se você fizer uma pesquisa com o nome de algum amigo(a), é capaz de achar várias páginas sobre atividades ligadas a ela. Mas ainda faltava um “lugar” onde todos pudessem se encontrar, gratuitamente, e se divertir “descobrindo” e vasculhando os amigos e os interesses dos outros amigos. Foi assim que foi criado o Orkut.
No Orkut, a metáfora de vitrine da vida é mais do que verdadeira. Para se cadastrar no Orkut, você primeiro precisa ser convidado por algum amigo. Este amigo cadastra seu nome e endereço de e-mail dentro do sistema do Orkut e este mesmo sistema lhe envia uma mensagem notificando que você foi convidado, pedindo que se cadastre. Após completar o cadastro dos perfis Pessoal, Profissional e/ou Amoroso, você começa a “vasculhar”. Primeiro, que tal procurar uma comunidade de ex-alunos da escola onde você estudou? É sim, pode ir lá e procurar, que é quase certo que já existe uma comunidade da sua escola. Que tal então procurar ex-colegas de trabalho? Procure o nome de sua(s) ex-empresa(s) dentre as comunidades. E assim você irá de lembrança em lembrança, consultando o Orkut para saber se já existe tal comunidade ou tal amigo e adicioná-los à sua lista de amigos ou de comunidades. Já pensou? Reencontrar aquele colega de infância com quem você estudou há muitos anos e, a partir de hoje, não perder mais contato? E os colegas de trabalho que você (ou a vida) deixou para trás naquela empresa em que trabalhou? Tudo é possível no Orkut.
Tudo isso só é possível pois, oficialmente, o Brasil é quase 60% do sistema de usuários cadastrados. Extraoficialmente, muito mais, já que muitos brasileiros hoje se cadastram como se fossem de outros países, para evitar um tráfego mais lento. Lenda ou não, eu também acabei aderindo à prática e posso garantir que notei uma leve diferença de velocidade (para melhor). Não que tenha ficado uma maravilha, pois navegar no Orkut requer muita, mas muita paciência. Se você não for do tipo paciente, evite navegar depois das 13h. O horário em que o servidor do Orkut está mais acessível é o período da manhã, esticando um pouco até umas 15h. Depois, esquece. Fica muito lento.
Orkut vicia também. Principalmente quando você acaba de descobri-lo e começa a garimpar todo o seu passado de amigos, ex-namoradas, conhecidos de trabalho, vizinhos que mal te falavam um oi e hoje, de repente, colocam um testemunhal dizendo que você é um sujeito honesto, paga todos os seus impostos em dia, gera muitos empregos e, acima de tudo, tem uma família linda e limpa.
O que mais surpreende no Orkut é que ele possibilita principalmente a manifestação de carinho, torna uma pessoa fechada mais compassiva, quase a “obrigando” a retribuir um elogio ou um pedido de amizade. A navegação é fácil e intuitiva, apesar de a interface ser toda em inglês. Se hoje você abre seu e-mail diariamente quando chega ao escritório ou em casa, tenha certeza de que checará suas comunidades logo cedo também no Orkut. É simples assim. Não adianta fugir. A/O — D/O — Antes do Orkut e Depois do Orkut.
É claro que já virou moda, o futuro não temos como prever. O sucesso do Orkut derivou outros sites parecidos (e até mais completos) na grande rede. Mas hoje, ainda, a melhor opção é o Orkut, apesar da lentidão. É lá que você poderá encontrar todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, acabam usando a net convencionalmente. Para divulgar sua atividade comercial, o Orkut também é uma mão na roda. Com ele, você pode ir adicionando o maior número de “amigos” e de comunidades correlacionadas com o seu ramo de atuação e, através do acúmulo e da troca de informações, acabar divulgando seu trabalho com gente que tem a ver com você, com seus gostos e com seu trabalho.
Outra grande vantagem são os perfis amorosos também. O Orkut é uma ótima maneira de conhecer novas pessoas. Isso porque, além de você poder colocar uma foto no seu perfil inicial, você também poderá adicionar até 12 fotos no seu álbum particular, e todas as pessoas poderão ter acesso também. Portanto, é uma ótima maneira de se colocar na vitrine, no mercado. Pode ser uma boa opção para os mais exibicionistas ou não, fica à disposição dependendo do interesse de cada um para utilizar o Orkut. Mas uma coisa é certa: depois do Orkut e de seus derivados, sites de paquera e de encontros (que são pagos) ficaram com os dias contados.
Você, nosso leitor, pode também fazer parte da comunidade da Revista Sinal Verde. É só procurar em “communities”, estamos lá também!
Caso você ainda não esteja no Orkut e nem tenha recebido um e-mail com um convite, posso dar uma sugestão: passe um e-mail para a sua lista de amigos e eu duvido que algum deles não esteja ainda no Orkut. Daí é só se convidar e mãos à obra.
Na próxima edição, teremos uma matéria de duas páginas, ensinando passo a passo todo o bê-á-bá e as “manhas” do Orkut.
Até lá!!
Telefone é coisa do passado — Parte 2
Bom, se você já leu nossa matéria sobre o Skype duas edições atrás, com certeza pôde perceber que estávamos falando de uma nova revolução nas comunicações utilizando a internet (através do software Skype) para substituir o telefone comum, fazendo chamadas de computador para computador através do método P2P (ponto a ponto, ou IP com IP), o mesmo utilizado pelo Kazaa para transferir arquivos de áudio e vídeo diretamente entre dois computadores conectados à internet.
Mas o Skype amadureceu. É verdade, agora o Skype já saiu de sua versão beta, partindo para a versão 1.0. E a grande novidade chama-se SkypeOut. SkypeOut é um serviço à parte, agregado ao já “convencional” Skype, onde você poderá comprar créditos de 10, 25 ou 50 euros (como um celular pré-pago) pelo site, com um cartão internacional, e, através do SkypeOut e da internet, fazer ligações para qualquer telefone fixo e celular do MUNDO.
Legal, mas pagando? Que novidade é essa?
Bom, pagando, sim, mas pagando muito pouco, é verdade! Imagine só: a grande vantagem de utilizar o SkypeOut é poder comprar créditos e fazer ligações interurbanas e internacionais pagando o equivalente a R$ 0,06 por minuto! Comprando o crédito de 10 euros, você poderá utilizar durante dez horas; comprando 25, utiliza 25 horas; e 50, 50 horas de conversação.
E para quais localidades podemos ligar por este preço mínimo? Bom, vamos lá?
Alemanha, Argentina (Buenos Aires), Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá (fixo e celular), Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos (fixo e celular), França, Holanda, Irlanda, Itália, México, Nova Zelândia, Noruega, Portugal, Reino Unido, Rússia, Suécia e Vaticano. Outros países têm uma taxa específica, mas não muito mais cara do que a taxa mínima utilizada para estes países. Para ligações dentro do Brasil, por exemplo, as taxas são as seguintes: telefone fixo (todo o Brasil) — R$ 0,20/minuto. Telefone celular (todo o Brasil) — R$ 0,64/minuto.
Sendo assim, compensa bastante utilizar o SkypeOut para ligações nacionais interurbanas (fixo e celular) e ligações internacionais. A qualidade da ligação não é tão perfeita quanto a das ligações feitas pelo Skype P2P (que propicia uma qualidade equivalente à rádio FM, por exemplo), mas, mesmo assim, vale muito a pena pela economia e por você pagar apenas o que utiliza, sem precisar pagar mais nenhuma taxa mensal, nem assinatura; apenas comprar os créditos por cartão e só.
Aproveite. A história da telefonia e das comunicações, a partir de agora, se transformará e você não poderá ficar fora, já que a ordem mundial é economizar.
Skype / SkypeOut — download em www.skype.com — para Windows 2000/XP, Linux, Mac e Pocket PC.
Paralisia cultural: você sofre desse mal?
Há quanto tempo você não entra em uma livraria por puro impulso? Há quanto tempo você não vai ao teatro? Alguma vez na sua vida comprou um jornal na banca por pura curiosidade e necessidade de estar bem informado? Exposição de arte, você sabe o que é isso? Bem, se para a maioria destas perguntas você deu uma resposta negativa, sinto muito: você possivelmente sofre de “paralisia cultural”. Uma das causadoras dessa “doença”, que também pode ser chamada de acomodação, tem uma parceira igualmente nociva: a televisão aberta/comercial.
São Paulo é a cidade que mais assiste TV em todo o Brasil e o que se vê é que a classe média cada vez mais se torna refém e alienada da TV comercial e cada vez menos se interessa em buscar novas alternativas de entretenimento e informação. As redes de TV não são as únicas culpadas. Com isso, soma-se a falta de hábito de ler, de “consumir” entretenimento e informação através de outros veículos e outras manifestações artísticas. “Como digerir” a arte, algumas incompreensíveis à primeira vista de quem não está acostumado, é outro assunto que pode ser abordado separadamente da “paralisia cultural”.
É impossível discernir sem ter conhecimento. É impossível ter conhecimento sem ter curiosidade. A acomodação e a alienação são os vilões que devem ser repudiados e combatidos por todos, inclusive pela classe média, que tem todas as condições de afugentar estes hábitos, mas é uma das camadas da sociedade mais acomodadas. Alguns têm a “falta” de tempo ou de dinheiro como argumentos para justificar o desinteresse em garimpar conhecimentos, eventos culturais, novos artistas, entre outros. É totalmente desconhecido para algumas pessoas que é possível assistir a peças de teatro, por exemplo, por um preço de R$ 8,00 em média (no circuito alternativo). O que faltam são condições de divulgação para o artista e, em contrapartida, curiosidade do grande público para pesquisar e prestigiar estes eventos.
Você ainda não está convencido? Quer outro exemplo? Há quanto tempo você e sua família não têm o hábito de “navegar” pelo dial AM do rádio à procura de programas jornalísticos, prestação de serviços, música alternativa, como é possível encontrar em rádios como Eldorado, Jovem Pan, Bandeirantes e CBN. Há muita cultura no AM. Pode acreditar.
A leitura é outro grande problema do Brasil. O Brasil é um dos países que menos lê no mundo. É um país que não lê livro; quando lê jornal, é caderno de esportes; e, quando lê revista, é revista de fofoca. Dificilmente podemos chegar a algum lugar com hábitos tão pobres, tão deficientes. O que está se questionando nesta coluna é muito mais do que a falta de incentivo à arte, à cultura e à leitura no nosso país. O que se questiona é a paralisia da classe média, que pode consumir e não consome. A “novelinha” das oito ninguém da família perde. Pode apostar.
Há quase um mês, a MTV, canal musical de TV, vem parando a programação, repito: PARANDO a programação, com uma tela preta, um sinal sonoro estridente e apenas uma mensagem: “Desligue a TV e vá ler um livro”. São 20 minutos de paralisação da programação por dia, no período da tarde. E não é por falta de programação ou publicidade. Essa é uma questão importante. Declarou para a nossa coluna a assessoria de imprensa da MTV: “Foi uma iniciativa do diretor-geral da MTV, André Mantovani. Como o nosso público-alvo é composto por jovens na faixa dos 14 aos 25 anos, é importante levantarmos a questão de quanto a TV pode ser prejudicial à formação das pessoas, por alienar e impedir que as pessoas possam buscar novas alternativas de informação e entretenimento”.
Nos primeiros dias, uma preliminar da audiência levantada pelo IBOPE confirmou o sucesso da campanha. Durante os 20 minutos de paralisação, 8% de todas as pessoas que estavam assistindo realmente desligaram a TV. Destes 8%, 14% eram jovens de 14 a 25 anos, target (público-alvo) da emissora. Isso comprova que, mesmo sendo início da campanha, a emissora teve uma resposta bastante positiva de sua audiência.
O que podemos sugerir é que você não se acomode. Vá aos SESCs, centros culturais, consuma informação, compre jornais, revistas, livros, ouça rádio, conheça novos artistas, novos músicos, vá a shows, visite exposições, vá à Bienal, mude a maneira como você se diverte e se informa. Comece o ano de 2005 mudando velhos hábitos que o tornam mais uma pobre vítima da alienação na multidão. Aproveite e leve sua família junto, assim você estará “limpando” todos desta praga chamada “paralisia cultural”.
Eu pergunto a você: quantos autores e escritores não lançam mensalmente novos trabalhos sobre os mais diversos assuntos? Quantos novos trabalhos, shows e propostas musicais são lançados de forma independente e estão por aí, prontos para serem consumidos, degustados? Quantas peças de teatro, filmes em circuito alternativo, exposições de arte, fotografia, entre outras tantas manifestações artísticas, estão no mercado, sedentas pela sua atenção? E você? O que você acha? Vai ficar aí, parasitando, assistindo à novelinha? Não acha que sua vida está muito limitada, não? Vê se melhora isso, pelo amor de Deus. Tenha vergonha de você e de seus familiares que compartilham do mesmo vício. Acorda!! Te vejo ano que vem. “Take care!”
“Desligue a TV e vá ler um livro.”
2004–2005
Os Mapas Sentimentais
Na Antiguidade e na Idade Média, os mapas eram, acima de tudo, a representação gráfica de um exercício da imaginação. Era pouco o que se sabia do mundo. Imagine então os antigos descobridores, navegantes, que tinham de se lembrar do que “podia ser” o mundo, anotando e traçando o que um dia viriam a ser os mapas. Anotações avisavam: ao norte, cuidado; ao sul, índios; ao oeste, fartura; entre outros exemplos.
Com os avanços da tecnologia, a cartografia tornou-se uma atividade científica e exata. O que antes era lúdico virou ciência e não nos propiciava mais um exercício à imaginação. Isso até dois cartógrafos holandeses, Jean Klare e Louise van Swaaij, construírem de forma modesta, em 1997, o primeiro mapa do mundo dos sentimentos. Essa iniciativa evoluiu para um atlas de 23 mapas que imediatamente se tornou um best-seller, vendendo mais de 400 mil exemplares em todo o mundo.
Isso é arte? Sim... é claro! Além de lúdico, é imaginativo, brilhante, genial e gostoso de “degustar”. Você, como leitor, se perderá em sua própria imaginação olhando para os mapas divididos em tópicos (terras).
Na “Terra dos Segredos” encontraremos, em meio ao “Mar das Possibilidades”, o pico do “Sigilo”, o município do Programa de Proteção a Testemunhas, a Base Aérea do “Preciso Saber”, entre outras localidades. Junto à Terra dos Segredos temos uma só ilha dedicada aos segredos do “Amor” e das “Fantasias”, dividida apenas por uma fronteira chamada “Clandestinidade” e assinalada como uma região em que é preciso ser muito cuidadoso.
Na Terra das Ilhas Não Razoáveis (Ilhas Impossíveis), encontraremos algumas ilhas como: “Certamente”, “Absolutamente Verdadeiro”, “Insuficiente”, “Perfeição”, “Exato” e “Sem Chance”. Nos “Desertos Gelados”, que o nome já sugere uma possível infelicidade, estão os icebergs “Traidor” e “Golpe Traiçoeiro”. No meio dos desertos, uma região de gelo fino, onde é preciso ter muito cuidado, pois você estará perto do capricho e do ressentimento.
Nos mesmos desertos gelados podemos encontrar os municípios “Calúnia”, “Negligência”, “Amargo”, “Desconfiança”, “Teimoso”, estrategicamente situados. Não muito longe, podemos encontrar o pico “Altivo” e o grande município do Medo.
Os mapas falam por si. Você poderá encontrar outros mapas de outras terras das diferentes experiências, emoções e sentimentos humanos, tais como: Conhecimento, Maus Hábitos, Lar, Tédio, Saúde, Rio de Ideias, Ilhas do Esquecimento, Paixão, Montanhas de Trabalho, Crescimento, Vácuo, Adversidade, Caos, Aventura, Alta Cozinha, Prazer, Mudança, Mortalidade e Além.
Cada mapa é acompanhado de ensaios, com um texto muito culto e gostoso, recheado de citações. Com um espírito eclético, temos citações de Madonna e John Locke, Montaigne e Steve Martin, Talmude, Lei de Parkinson, Platão, Ikebana, George Bush (pai), Monty Python, Aristóteles, Woody Allen, William James, The Who, entre tantos outros...
Este livro pode ser rotulado como autoajuda, autoconhecimento, mas eu gostaria de poder colocá-lo este mês na Prateleira Cultural de grandes obras de arte, em que a arte de provocar a nossa imaginação, levando-nos a um raciocínio sobre os próprios sentimentos e emoções, já é algo louvável para dois cartógrafos que, quase sem querer, fizeram algo genial.
Atlas da Experiência Humana — Louise van Swaaij e Jean Klare · Editora Publifolha · 96 págs. · R$ 39,00.
2005
Romeu e Julieta
Baseado em conto de Mário Prata, “O Casamento de Romeu e Julieta” faz um retrato bem-humorado e despretensioso sobre a paixão.
Julieta (Luana Piovani), uma torcedora fervorosa do Palmeiras, se apaixona perdidamente por um corintiano roxo (Marco Ricca). Alfredo Baragatti (Luís Gustavo), pai de Julieta, é um advogado descendente de italianos, palmeirense roxo e membro do Conselho Deliberativo do clube. A partir daí, você já pode imaginar o “rolo” que promete o novo filme de Bruno Barreto, “O Casamento de Romeu e Julieta”.
Como se já não bastasse, Alfredo Baragatti criou sua Julieta para ser como ele, e ela é jogadora do time feminino do Palmeiras, jogando como centroavante.
O corintiano roxo Romeu (Marco Ricca), um médico oftalmologista de 45 anos, aceita se passar por palmeirense, em nome do amor, para que seja aceito na família de Julieta. Ele chega a se filiar como sócio do Palmeiras e ir aos jogos para torcer pelo Verdão junto com toda a família de Julieta. Tais atitudes geram desconfiança na família de Romeu, principalmente em seu filho Zilinho (Leonardo Miggiorin) e na avó Nenzica (Berta Zemel), ambos corintianos fanáticos.
Dirigido por Bruno Barreto (“Bossa Nova”), o filme conta com Luana Piovani, Marco Ricca, Luís Gustavo e Mel Lisboa no elenco. O diretor Bruno Barreto, 50 anos, é carioca e flamenguista. Barreto diz “nunca ter dado bola para o futebol”. “Gosto apenas do espetáculo que o futebol causa. E isso, para mim, está na torcida, é isso que me interessa. O pano de fundo é o futebol, mas a história não é só isso”, disse, em recente entrevista concedida a um jornal paulistano.
O melhor tempero que uma história de amor poderia ter era justamente a diferença que existe entre famílias corintianas e palmeirenses. Além disso, “O Casamento” é uma declaração de amor a São Paulo e a seus personagens. Como seu filme anterior foi “Bossa Nova” (uma história supercarioca), este novo filme pode ser considerado uma história superpaulistana.
“Fiz agora algo muito mais complexo. É uma tragicomédia romântica com um final feliz.” Com orçamento de quase R$ 8 milhões, Barreto crê ter feito um filme diferente de anteriores, como “O Que É Isso, Companheiro?” (97) e “Bossa Nova” (99). “Aqui tive toda a liberdade e inventei de contar essa história em tom de comédia italiana.”
Resta agora conferirmos o resultado deste magnífico enredo a partir do próximo dia 18 de março, em circuito nacional, nos cinemas.
Seu Jorge
Provavelmente você nunca tenha ouvido falar desse cara, ou o nome não é estranho pra você, mas você nem sabe o que ele faz. Tranquilo. Seu Jorge hoje é um artista cult.
Carioca de 34 anos, nascido em Belford Roxo, cantor, compositor e ator, acaba de lançar seu segundo álbum solo (“Cru”, o primeiro internacional, bancado pelo selo francês Naïve e, por enquanto, disponível apenas na Europa), estrelou o filme “The Life Aquatic with Steve Zissou”, de Wes Anderson, ao lado de Bill Murray e Anjelica Huston (e fez a trilha, cheia de músicas de David Bowie toscamente tocadas ao violão e em português), viu seu samba-suingue “Tive Razão” estourar na França e virou, ele mesmo, um dos maiores ícones do tal “Brasil cool” que se espalha pelo mundo.
Isso sem falar na sua participação no filme “Cidade de Deus” como “Mané Galinha”, que lhe rendeu outras participações em filmes estrangeiros e a simpatia gringa para com a sua imagem. Antes mesmo de ser conhecido, Seu Jorge fez parte da banda “Farofa Carioca”, em que timidamente lançou um álbum e videoclipes pouco exibidos na MTV brasileira.
Foi na carreira solo, como ator, cantor e compositor (isso mesmo, os três ao mesmo tempo), que Seu Jorge hoje é respeitado na Europa, já emplacando hits e tendo o clipe de sua música “Tive Razão” (Melhor Vídeo de MPB 2004 — MTV) protagonizado por Bill Murray, que foi seu parceiro no filme “The Life Aquatic”. Recentemente, emplacou no Brasil a releitura do clássico de Chico Buarque “Cotidiano”, em parceria com o DJ Marcelinho da Lua, dando como contribuição a sua inconfundível interpretação.
A música de Seu Jorge pode ser rotulada como samba, samba-rock, suingue, metais suingados em “Carolina” ou “Mangueira”, ou simplesmente cavaquinho, violão e voz no hit “Tive Razão”, com uma melodia maravilhosa.
Seu Jorge, com um timbre de voz forte, já foi morador de rua, mas, muito articulado, sempre mostrou ser um artista muito consciente e capaz da responsabilidade de trazer algo novo à MPB, onde “os barquinhos” da Bossa Nova já estão fora de uso no cais há muito tempo.
Sobre sua notoriedade no exterior, ele explicou recentemente à Folha de S.Paulo: “Isso tudo é a força do cinema. E eu sinto essa curiosidade em torno de um país que tem um presidente como Lula e um ministro como Gilberto Gil. Eu não falo de política, falo sobre sonho. Mas Lula é um sonhador, então me identifico com ele. Agora é a hora de tirar um pouco a camisa ‘9’ do Ronaldinho do meu som, usando a percussão como instrumento de solo, mostrar como somos multiculturais e multicoloridos. Chamaram ‘Cru’ (nome do novo disco) de ‘blues da favela’ e acho que é por aí mesmo.”
Se você quer ouvir algo bom, novo e revigorante, ouça os dois últimos trabalhos oficiais de Seu Jorge: “Samba Esporte Fino” e “Cru” (2005). Música de um ex-morador de rua carioca, com muito orgulho de suas raízes, que manifesta sua arte de forma autêntica, sonora, às vezes até ingênua, mas, como resultado, traz um novo e bonito atalho aos caminhos da música brasileira. É música para se ouvir em casa, namorando, na estrada, dançando, onde você quiser. A música de Seu Jorge consegue ser adequada a qualquer momento.
Apesar de Seu Jorge não estar tão presente na mídia brasileira, os publicitários responsáveis pela campanha da cerveja Brahma o colocaram ao lado de Zeca Pagodinho e Marcelo D2 para estrelar a última campanha de verão da cerveja, provando que ele tem uma imagem cada vez mais importante, já ostentando posição de artista cult e internacional.
A coluna Prateleira Cultural recomenda também o DVD gravado pela MTV no luxuoso Hotel Unique, em 2004 — “MTV Apresenta — Seu Jorge” — com uma seleção requintada de seu repertório, passando pelo funk, sambas e grooves. Seu Jorge vem acompanhado por grandes músicos e convidados especiais como Paula Lima, a musa da black music nacional, especialmente reunidos para esta única apresentação. Inspirado nos grandes bailes e festas, o show inclui grandes sucessos de sua carreira e do álbum “Samba Esporte Fino” e mostra todo o carisma, a energia e a espontaneidade de Seu Jorge com seu trabalho inovador e inesquecível em seu primeiro DVD.
Você também poderá encontrar Seu Jorge no DVD Tributo a Tim Maia, provando também que é um maravilhoso artista performático. Ele roubou a cena do tributo, vestindo chapéu de cangaceiro e interpretando de forma majestosa o clássico baião “Coroné Antonio Bento”, do saudoso “Gordoidão”.
Saiba mais sobre o artista: www.seujorge.com
Nas ondas do Rádio
Às 0h do último dia 20 de maio, entrou no ar a Rede BandNews FM, a primeira rede de rádio “all news” exclusivamente em FM. Ao mesmo tempo, a Rádio BandNews ocupa as FMs das principais capitais do Brasil. Na sua fase inicial, podemos encontrá-la nas cidades de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Em São Paulo, a nova rádio já ocupa a tradicional e famosa frequência 96,9 MHz, que antes pertencia à Rádio Sucesso FM e, mais antigamente, à lendária Rádio Cidade.
A iniciativa de se colocar uma nova rádio neste formato ocupando as principais FMs do país se deve à necessidade de consolidar a imagem do jornalismo do Grupo Bandeirantes (que já conta com a Rede Bandeirantes de rádio AM e a TV paga BandNews) e oferecer uma concorrência de peso à rede CBN de rádio (pertencente à Globo, atuando em todo o país).
Aficionados por rádio no mundo inteiro adoram poder ter acesso ao que há de mais novo, diferente e longínquo possível, em se tratando de emissoras de rádio. Antigamente, antes da internet, essas pessoas só podiam descobrir novas e longínquas rádios garimpando nas frequências das Ondas Tropicais (TW), Ondas Médias (MW) e Ondas Curtas (SW). Estes curiosos profissionais até hoje mantêm estes rituais e utilizam até receivers importados, que lhes dão maior confiabilidade e variedade de opções na recepção das rádios.
Como pouca gente está habituada a “navegar” por estas frequências, cabe frisar que a recepção é condicionada à estação do ano, temperatura e período do dia. É possível que, durante um dia ensolarado, você consiga sintonizar uma rádio da América Central e, durante a noite, uma rádio africana, na mesma frequência.
Mas, hoje em dia, a sede de informação e curiosidade por outras culturas (próximas ou distantes) pode ser facilmente saciada utilizando a internet e navegando pelos sites das rádios e sites especializados em rádio.
O já tradicional site RADIOS (www.radios.com.br) oferece amplas listas de rádios de todos os estados do Brasil e de quase todos os países do mundo, oferecendo também redes de TV ao vivo, do Brasil e do mundo. No site TUDO RADIO.COM (www.tudoradio.com) é possível escolher estações de rádio de todo o Brasil e se informar com boletins e colunas de especialistas em radialismo e radioescuta.
Para quem ainda não vê graça em ouvir rádio pela internet, podemos citar grandes vantagens, entre elas:
- Grande variedade de estações, de inúmeras cidades do Brasil e do mundo.
- Não há problemas de sintonia. A qualidade de recepção, na maior parte dos casos, é muito boa e não é preciso ter banda larga para ter acesso.
- A grande “graça” de se ter acesso às rádios é a facilidade de contato ao vivo, constante e rotineiro com outras culturas, com sua cidade natal no interior de São Paulo, com aquele país caribenho onde você teve uma viagem inesquecível, com aquela cidade do norte da Itália de onde sua família faz parte etc. É enriquecedor culturalmente e geograficamente.
- É rápido, fácil e prático; portanto, é possível substituir o rádio ou o CD player no computador enquanto você está no trabalho ou em casa.
Para quem se interessa em ter um contato constante com novas rádios, uma boa e nova alternativa é o “VALVULADO”, criado por mim e desenvolvido por Tatiana Felipe.
No Valvulado, o dial de um rádio digital foi “encaixado” na foto de um rádio antigo de madeira. As frequências de AM e FM deslizam no meio do rádio, por comando do visitante, onde é possível sintonizar as principais rádios brasileiras. Atualmente estão disponíveis todos os dials AM e FM da Grande São Paulo, assim como as principais emissoras do interior e do litoral de São Paulo.
Em breve, ficarão disponíveis os dials de Curitiba e Estado do Paraná, Porto Alegre e Estado do Rio Grande do Sul, Florianópolis e Estado de Santa Catarina, Rio de Janeiro e Estado do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Estado de Minas Gerais, Campo Grande e Dourados (MS), Brasília (DF), cidade de Orlando (Flórida) e Nova York (NY).
O Valvulado funciona dentro do próprio navegador, não sendo necessário carregar ainda mais o seu computador, abrindo outros programas. Você pode acessar nosso rádio virtual em http://starla.inmyworld.net/listen
Ouça várias emissoras de rádio, descubra novas culturas, informações inusitadas em tempo real, novos sotaques, novas regiões e sinta como se você estivesse se teletransportando, em poucos segundos, para qualquer lugar do mundo, ouvindo o que caracteriza e dá identidade a seu povo: o rádio!
O Planeta Google
No filme “MIB — Homens de Preto” (de 1997), os alienígenas que estavam no planeta Terra eram fiscalizados e punidos por uma agência ultrassecreta (e fictícia) ligada ao governo americano. Para que os agentes pudessem cumprir sua função, deveriam abandonar sua antiga vida “real” e assumir uma nova identidade secreta, vivendo isoladamente.
O personagem de Tommy Lee Jones (parceiro de Will Smith), um dos agentes Homens de Preto mais experientes da equipe, às vezes não se continha e utilizava um recurso ultrasofisticado só disponível à agência. Para matar as saudades de sua antiga vida, ele fazia uma espionagem em tempo real com a ajuda de um mecanismo via satélite, se aproximava, aproximava, aproximava e, por uma tela, estava vendo sua ex-mulher ao vivo, regando as flores do jardim de casa.
Provavelmente inspirada por esse devaneio tecnológico do filme MIB, a equipe de programadores do Google e da empresa Keyhole (também pertencente ao grupo) faz com que a vida imite a arte.
O “Google Earth” é um software fantástico disponibilizado gratuitamente pela empresa Google, onde você pode viajar por qualquer parte, cidade, rua, monumento, localidade da Terra com apenas um clique do seu mouse.
É tão bom e tão divertido que fica difícil descrever esta nova experiência online na internet.
O software funciona como um navegador, que é pré-instalado em seu computador e, através dele, é possível navegar pelos servidores do Google, onde estão armazenadas centenas de gigabytes de imagens de toda a superfície da Terra, captadas por satélites e pelas empresas que gerenciam esse processo. Uma delas é a DigitalGlobe, que comercializa dados e imagens geoespaciais.
As fotos são feitas em quadros de 16,5 × 16,5 km. Isso explica por que, ao mover o mapa, as imagens vão se tornando nítidas em partes, como um mosaico. A DigitalGlobe levou três anos para registrar a maior parte da superfície terrestre: 150 milhões de quilômetros quadrados.
Além da divertida tarefa de procurar (e encontrar!) sua casa, sua escola, seus vizinhos, navegar pelo Google Earth acaba se tornando uma aula de geografia. No caso do Brasil, todos os municípios estão identificados nos mapas. Em uma grande cidade como São Paulo, o mapa vai automaticamente para o centro da cidade e, daí para frente, você tem que localizar seu bairro e sua localização “no mouse”.
Dá um pouquinho de trabalho, mas é divertido. Uma vez encontradas as localidades, você não precisará fazer o mesmo caminho duas vezes. É só marcar o lugar com uma tachinha, uma seta ou um símbolo e escrever o nome do que você encontrou.
Na próxima vez, é só dar um duplo clique no nome da localidade que você já “voa” automaticamente pra lá!
Infelizmente, as imagens não são ao vivo (ainda), como no filme.
Um porta-voz do Google afirmou que a base de dados usada pelo Google Earth terá renovações a cada 18 meses.
Muitos mapas exibidos possuem falhas de atualização. A imagem da antiga Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, ainda exibe os quatro pavilhões lá, em pé.
Existe uma diferença significativa de qualidade entre as fotos digitalizadas de capitais dos Estados Unidos e algumas da Europa com cidades do resto do mundo. No caso das fotos feitas na cidade de San Francisco (Estados Unidos), por exemplo, os prédios aparecem com definição em 3D. O contraste das cores é muito mais forte, resolução e definição impecáveis, e é possível até mesmo enxergar a sombra de uma pessoa na calçada.
Embora não encontremos a mesma definição nas fotos feitas aqui no Brasil, a qualidade não decepciona. As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília têm uma resolução superior às demais. A tendência é que, com o aperfeiçoamento das ferramentas, popularização do serviço e ampliação do mercado publicitário que começará a girar em torno desta nova aplicação, as imagens do mundo inteiro tenham uma qualidade cada vez melhor.
Parecido com programas semelhantes, inclusive os da NASA, Google Earth tem uma grande vantagem: é bem mais leve do que seus concorrentes, rodando a partir de um Pentium 500 MHz, com monitor em resolução 1024 × 768. Não chega a consumir barbaridades de memória RAM; com 128 MB você consegue utilizar o software, mas recomendamos pelo menos 256 MB para uma “viagem” sem transtornos. Pelo menos 400 MB de espaço em disco rígido são necessários. E, claro, uma boa conexão banda larga.
“Há muitos anos não vejo um produto tão estimulante”, disse o colunista especializado em tecnologia Paul Gilster. “O Google Earth é uma fonte inesgotável de informação e entretenimento”, afirmou o The Washington Post.
A Microsoft já correu para lançar um concorrente, o Virtual Earth (www.virtualearth.com), que também oferece serviço de localização baseado em imagens de satélite. A aproximação dos gráficos, porém, deixa a desejar quando comparada à do Google Earth.
Yahoo!, Google e Microsoft estão criando esses serviços com a expectativa de que se tornem uma parte importante de uma área significativa da publicidade virtual: propagandas dirigidas a públicos de locais específicos, que seriam embutidas tanto nos mapas gerados como nas imagens exibidas ao lado deles.
Ainda na versão beta (de testes), o Google Earth já causa polêmica. Além de imagens de alta resolução, o serviço dá ao usuário informações precisas sobre as coordenadas do lugar, o que pode causar problemas em casos de instalações estratégicas, como aeroportos ou bases militares, já que supostamente poderia ajudar o inimigo a localizar armas e veículos.
Este é, aparentemente, o caso do Iraque. As imagens “podem levar exatamente ao edifício onde estamos”, afirmou o capitão Joshua Thompson, na base aérea de Balad, no Iraque, à rede de televisão NBC. As imagens desta base aérea foram feitas há um ano, mas Thompson assinalou que o lugar não mudou muito desde então.
Assim como os militares, os responsáveis por um reator nuclear perto de Sydney, na Austrália, demonstraram no início do mês preocupação pelo grau de detalhes oferecido pelas imagens. A nova tecnologia levou a Organização Australiana para a Ciência Nuclear e a Tecnologia a pedir ao Google que censurasse as imagens, tal como já fez com fotos aéreas da Casa Branca, na capital americana, que aparecem borradas.
A velocidade e variedade dos serviços oferecidos pela internet são cada vez mais espantosas. Desta vez, o software “Google Earth” conseguiu empolgar até usuários mais experientes, virando febre na internet e abrindo uma infinidade de novas possibilidades.
Não perca tempo e faça já o download do Google Earth em http://earth.google.com
Sua vida vai mudar com o RSS!
Esta é uma coluna cultural e, à primeira vista, você pode achar: “Mas isso lá é assunto para uma coluna chamada Prateleira Cultural??” “Não seria melhor uma coluna de informática?” NÃO! NÃO! e NÃO! A proposta desta coluna, desde o início, foi sempre abordar assuntos relevantes e que tenham sido comprovados, desde cinema, música, TV, literatura, rádio, mídia, noticiário, cultura pop, novas tendências, entre outros.
Pois é, chegou a hora de falar sobre um assunto que parece técnico, mas que uma vanguarda de profissionais liberais e antenados de plantão já utiliza para se informar diariamente sobre os assuntos que lhes interessam, sem ter que ficar procurando, perdendo tempo. Vai direto na veia, com rapidez e de uma forma abrangente. Como isso é possível? Através de uma tecnologia (baseada na linguagem XML) chamada RSS.
Funciona assim: em vez de você ir atrás das notícias que lhe interessam nos sites de notícias e blogs, você fica parado e a notícia vem atrás de você. Como? Você instala um programa agregador (de RSS) no seu computador, que permite que você faça filtros e/ou separe diretamente as editorias que lhe interessam dos jornais, revistas, blogs etc.
Por exemplo: eu quero ler a revista ISTOÉ semanalmente, as editorias de informática, Ilustrada e Esporte da Folha de S.Paulo, os meus blogs prediletos, o caderno Magazine do New York Times, o caderno LINK do jornal O Estado de S.Paulo e ouvir semanalmente o programa de rádio “Panorama”, produzido diretamente de Londres, em português, pela BBC Brasil.
É simples: os blogs, os grandes provedores de conteúdo, entre eles jornais, grupos de comunicação, páginas pessoais, todos já estão disponibilizando seu conteúdo em RSS para ser acessado pelos agregadores de notícia.
Te interessa? Você copia o endereço do “feed” (alimentação, em inglês) da editoria que você costuma ler e cadastra este endereço no seu agregador. A partir daí, tudo o que for publicado sobre determinado assunto no portal de quem produz o conteúdo é automaticamente “baixado” para o seu agregador/computador, com um pequeno resumo e o título da matéria. Se a notícia te interessar, é só dar um duplo clique na matéria e você pode lê-la na íntegra, como se estivesse lendo um e-mail. Rápido e simples assim.
O único problema é que, com o acúmulo de editorias e assuntos, se você não se policiar, vai ter uma “overdose” de informação. Mas isso é simples de resolver quando se quer objetividade na informação.
Caso você leia bons blogs regularmente, grande parte deles já oferece este recurso de “emitir a informação” em RSS. Portanto, é só cadastrar o feed do blog no seu agregador e, sempre que tiver notícia nova publicada, o seu agregador irá informar e você lerá tudo na hora, sem perder tempo nem ter que visitar todas as páginas de notícias diariamente.
Nestes novos tempos da informação e da agilidade, o RSS veio para mudar a maneira como você se informa, lê jornais, revistas, blogs, ouve rádio (na próxima edição da revista Sinal Verde falaremos dos já famosos podcasts, também baseados na forma de distribuição RSS, o que promete substituir a maneira como se ouve rádio), vê vídeos, entre todos os tipos de mídia.
O próximo Windows Vista, que substituirá o XP, já estará apto para interagir em seus programas, provavelmente no Internet Explorer 7, com todos os recursos de RSS. Ou seja: experimente já! Eu já sou um evangelizador do RSS. A partir do momento em que você experimentar, também será.
Grande parte das agências de notícias e provedores de conteúdo já se adaptou ao RSS e oferece o recurso.
É só observar os sites que têm o símbolo padrão: um retângulo pequeno laranja com a sigla RSS ou XML.
Tutoriais e agregadores citados na publicação: terra.com.br/rss · rss.uol.com.br · estadao.com.br/ext/rss/index.htm · FeedReader · DeepNet Explorer · Instanta News.
A coluna anunciava para a edição seguinte um texto sobre podcasts, descritos ali como uma espécie de programa de rádio distribuído por RSS e armazenado no computador ou em iPods.
Do nosso lado do rio
Está sendo lançado o novo CD da banda 365. Se você conhece, com certeza comemorou a novidade; se não conhece, te adianto: não estamos falando de nenhum grupo que saiu da garagem semana passada.
365 é uma banda que faz parte da história do rock brasileiro. Não só por ter feito parte do início do punk rock no Brasil, não só por existir já há 22 anos, não só por ter gravado uma das músicas mais marcantes sobre a cidade de São Paulo, não só por ter lançado quatro belíssimos álbuns oficiais, não só por representar (ao lado da banda Ira!, talvez) para todo o país a força de uma banda paulistana, mas também por pertencer orgulhosamente “ao nosso lado do rio”.
O título do novo álbum é quase esse: “Do outro lado do Rio”. Foi assim que Finho, vocalista da banda, respondeu quase 20 anos atrás a uma repórter da rádio 89 FM sobre de onde eles eram: “Somos do outro lado do rio. Zona Norte” — disse, orgulhoso.
Finho (vocal), Ari (guitarra) e Miro (bateria) formam a banda que, para fãs da capital paulistana, são conhecidos como “Os caras da Zona Norte” e, para fãs de fora de São Paulo, são conhecidos como “Os caras de São Paulo”.
O primeiro álbum oficial da banda foi lançado em 1987, com clássicos do rock nacional como “São Paulo”, “Grândola Vila Morena”, “Nunca Mais Seremos os Mesmos” e “Canção para Marchar”. O segundo álbum, tão bom quanto o primeiro, foi lançado em 1990 — “Cenas de um Novo País” — surpreendendo com músicas que se tornaram outros clássicos: “Só Armas Não Fazem a Revolução”, “Anos 70”, “31 de Março” e “Berço Esplêndido”.
Em 1996, a banda temporariamente se dividiu. Finho e Ari se juntam a Nelson (bateria) e Júnior (baixo) e montam o MMDC. Lançam um novo álbum, com regravações do 365 e músicas inéditas.
Agora, com o novo álbum, somos congratulados com novas músicas escritas por Finho, Ari, Mingau (hoje baixista do Ultraje a Rigor, que fez parte da primeira formação da banda) e compositores amigos da banda, como Glauco Mattoso.
Destaque para as inéditas “Tietê”, “Quando Parti”, “Dança das Mãos”, “Aquela que Faltava (Hoje Eu Vou)”, “Jamaica” e “Sambódromo”.
Chega a ser incrível que, no meio de crises da indústria fonográfica, da escassez de talentos e da mesmice do cenário musical brasileiro, letristas e compositores como Finho ainda permaneçam fiéis ao estilo que os consagrou. Finho vem de uma geração (anos 80) de compositores em que a letra da música era poesia musicada. Letras cheias de referências e, no caso dele, por tabela, viram uma aula de história, de antropologia, enriquecida por uma atmosfera épica que Finho dá em suas letras, como também em peças de teatro, livros, entre outras obras.
Não tenho certeza, mas acredito que seja algo único no rock brasileiro. Não me recordo de nenhuma banda que tenha a mesma característica. Existiram compositores como Renato Russo, por exemplo, que partiram para um lado mais emocional. No caso do 365, o rock ’n’ roll, a influência do punk rock, de Beatles, o rock básico, direto, objetivo e pulsante são “veículos” perfeitos para imprimir um estilo incomparável às letras que exaltam a capital paulista, a história do país, da cidade e de características nacionais.
Não foi à toa que “São Paulo” se tornou quase um “hino”. Prefiro parar com os adjetivos, comentários e pedir que você vá atrás da discografia da banda. Descubra por si mesmo. Deixe a música te contagiar, leia as letras. Tenho certeza de que não há nenhum exagero na minha coluna.
A Warner Music, através do baterista Charles Gavin, dos Titãs, relançou os dois álbuns do 365 (1987, 1990) em um só CD. É possível encontrar nas lojas ou comprar pela internet.
Aproveite e compre também o novo CD, “Do outro lado do rio”, que não deixa nada a desejar aos outros álbuns lançados. Tenho certeza de que, em matéria de música, o seu fim de ano será muito mais interessante!
Você pode encontrar o novo CD em lojas, supermercados e também comprar online, pelo Submarino, Americanas, Livraria Cultura, entre outros portais.
Acesse a página da banda e confira, além do material, a agenda de shows: www.365rock.com.br.
Te vejo ano que vem! Um ótimo fim de ano pra você!
2006
Lounge
Quero falar da série “Jóia”, criada por Luciano Huck em 2002, trazendo coletâneas da música Lounge e Chill Out.
Afinal, o que é Lounge? Até pessoas assumidamente entendidas no assunto se contradizem. Isso porque o Lounge tem diversas vertentes. Na minha leitura sobre o assunto, até vejo que traditional jazz remasterizado é considerado Lounge, Bossa Nova com camadas eletrônicas idem, músicas étnicas embaladas em ritmos digeríveis também. Até gravações da Hebe Camargo na década de 60, pasmem, já foram embaladas e vendidas como Lounge pelo mundo.
Dizem que o Lounge, ou a “música Lounge”, foi “extraída” daqueles ambientes de grandes hotéis internacionais, onde pianistas acompanhados de outros instrumentistas “perfumavam” o ambiente enquanto os hóspedes conversavam ou tomavam seus drinques. Essa é a essência do Lounge.
Gostaria de citar minha amiga curitibana Melanie Moro, uma colecionadora e conhecedora de Lounge e Chill Out, a quem recorri inúmeras vezes quando me aventurei a conhecer esses estilos musicais, em 2004.
Nessas pesquisas, a gente descobre coletâneas e lançamentos europeus constantes e renomados como o “Hotel Costes”, que acaba servindo de referência para o resto do mundo, assim como serviu para Luciano Huck criar a série e o selo “Jóia” e fazer definitivamente o Lounge conhecido no Brasil.
Para quem não está disposto a pagar muita grana importando lançamentos de Lounge da Europa, vale a pena comprar a coleção Jóia (1, 2, 3 e 4). São seleções do que há de melhor no Lounge e Chill Out.
Agora, em 2006, o selo “Jóia Music” lança o primeiro DVD, chamado “Jóia Sunset”, com uma novidade: além de ter uma seleção de 15 músicas, quando exibido em DVD você acompanha em tempo real, sem cortes, um dos maiores espetáculos naturais do país, o pôr do sol de Fernando de Noronha. Simplesmente fantástico. O pôr do sol pode ser assistido na íntegra por três ângulos diferentes. Perfeito para namorar, para um jantar com amigos, para um empresário no fim da tarde relaxar ou para qualquer outro momento introspectivo.
Para mim, a melhor solução audiovisual em DVD feita até hoje. O que antes já era maravilhoso para “temperar” um ambiente, a música Lounge, agora fica mais especial com um visual espetacular, bem na frente do seu sofá.
A trilha inclui ainda “Jazz Music”, da banda alemã De-Phazz, que mistura hip-hop e jazz. O resultado é uma batida ritmada, acompanhada por solos de guitarra e muita percussão. Destaque também para Encanto de Orfeo. Lindo!
Até a próxima!