
Em 1992, quando o Coitado do Próximo ainda estava no começo, um encontro casual ampliou o horizonte musical de Nicchio. Num dia em que havia cabulado aula e passava o tempo lendo jornal na banca de Márcio, amigo e dono da banca, Márcio chamou sua atenção para um homem que passava: Roberto Sassano, conhecido na cena como Roberto Limonada — ou simplesmente Limonada.
Nicchio tinha entre 15 e 16 anos e atravessava um período de desorientação pessoal depois da separação dos pais. Já tocava e começava a compor, mas ainda procurava uma identidade musical própria. A aproximação com Roberto passou a representar algo maior do que conhecer um músico mais experiente: abriu uma possibilidade concreta de pertencimento, repertório e vida ligada ao punk rock.
Roberto era proprietário de um posto Esso na Avenida Brás Leme, a mesma avenida onde Nicchio morava, e tocava com os Destemidos Limonadas & Punkecas. A banda estava prestes a se apresentar no Café Piu Piu, no Bexiga, e aparecia com foto em uma matéria do extinto Diário de São Paulo. Márcio abriu o jornal e apontou para a imagem: Olha quem é esse cara, olha eles aqui.
O próprio posto também virou matéria-prima para o humor da banda em “O Posto”, um rock de duplo sentido registrado em apresentação na TV Cultura de São Paulo.
Da conversa nasceu uma amizade alimentada principalmente por Ramones e punk rock. Nicchio ainda vinha de uma escuta muito marcada pelo thrash metal — com Ratos de Porão entre as referências mais presentes — enquanto Roberto possuía um conhecimento profundo da história e da cena punk. Ramones, paixão que Nicchio já carregava, para Limonada era quase uma religião. Nicchio passou a frequentar o escritório do posto para ouvir rádio e conversar sobre bandas, discos, shows e a cena paulistana.
Em junho de 1992, Roberto telefonou para avisar que os Destemidos seriam entrevistados naquela noite no Jô Soares Onze e Meia, no SBT. Para um adolescente que ainda tentava encontrar seu lugar, ver na televisão nacional uma banda punk ligada a alguém que havia acabado de entrar em sua vida teve um efeito decisivo: um universo antes distante ganhou proximidade e possibilidade.
Na mesma passagem pelo programa, os Destemidos apresentaram “Ela Só Gosta de Pizza”, música que já começava a ligar a trajetória da banda à de Kid Vinil.
Registro ao vivo de “Ela Só Gosta de Pizza” durante a passagem dos Destemidos pelo programa.
Os Destemidos já mantinham também uma ligação com Kid Vinil. O baixista da banda era amigo de longa data de Kid, que enxergou em “Ela Só Gosta de Pizza” uma música com força para integrar sua retomada artística. A canção passou ao repertório de Kid Vinil e Verminose e se tornaria o elo mais visível entre as duas bandas. Essa história ganharia um capítulo próprio em 1993, quando Roberto levaria Nicchio a um show de Kid no Café Piu Piu.
A convivência de Nicchio com os Destemidos continuou em ensaios e shows, inclusive no circuito do Aeroanta. A influência também atravessou diretamente o repertório do Coitado do Próximo: a partir de 1993, a banda passou a tocar “Ela Só Gosta de Pizza” em ensaios e apresentações. Em 9 de março de 1995, Limonada esteve entre as grandes surpresas da festa de 18 anos de Nicchio; em 1998, o Coitado incorporou uma versão de “Ali Babão”, dos Destemidos, que segundo a lembrança de Nicchio ficou entre as músicas mais aplaudidas daquela noite e recebeu elogios de Paulão de Carvalho; e, por volta de 2000/2001, Roberto foi convidado a participar de um show do Coitado no Rock n Roll Bar, ligado a Paulão e às Velhas Virgens. A música específica dessa participação ainda não está identificada no arquivo.

Registro de “Herói do Brasil” com participação especial de Kid Vinil.