
Marcelo Nicchio foi batizado na tradição católica em 1977, ainda criança. A espiritualidade, porém, não permaneceu para ele como uma identidade simplesmente herdada. A partir de 2004, transformou-se em objeto de busca deliberada. Nesse período, mergulhou em livros que reuniam transcrições de palestras de Osho, sobretudo em edições brasileiras da Editora Cultrix. A leitura deixou de ser apenas intelectual: participou de meditações ativas com sannyasins urbanos de São Paulo, formou amizades e passou a conviver socialmente com pessoas ligadas àquele círculo.
A filosofia de Osho permanece como uma das experiências intelectualmente mais libertárias de sua vida. Ao mesmo tempo, funcionou como passagem, não como chegada. Depois do encerramento das gravações de Meia-Noite e Uns, em 2006, sentiu uma necessidade quase visceral de compreender o Budismo em profundidade — não apenas por meio dos insights que apareciam nas falas de Osho. Dedicou-se então ao estudo e à prática sobretudo do Budismo Theravada, a tradição budista sobrevivente mais antiga do mundo, hoje predominante em grande parte do Sudeste Asiático continental e também profundamente enraizada no Sri Lanka. Por sua continuidade textual e monástica, é geralmente considerada a tradição atual que conserva maior proximidade com as formas antigas do Budismo. Nicchio também estudou a tradição tibetana.
Em algum momento desse percurso, participou de uma cerimônia de tomada de refúgio na tradição Theravada. Para ele, o gesto ocupou simbolicamente um lugar comparável ao de um batismo: uma declaração consciente de compromisso. Ao tomar refúgio, recebeu o nome budista Dhanadhammo, que, segundo o monge que o concedeu, significava “Aquele que é Generoso”. O vínculo, contudo, não durou como identidade religiosa. Quando sua experiência começou a deslocar-se da investigação histórica e filosófica para uma dimensão que percebia como excessivamente devocional, surgiu um conflito existencial. Nicchio afastou-se da religião organizada, embora a busca que o havia levado até ali não tivesse sido apagada.
Em janeiro de 2007, essa busca chegou ao seu ponto mais radical. Nicchio inscreveu-se em um retiro residencial de meditação Vipassana no Dhamma Santi, em Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro. Aberto em 2003, o Dhamma Santi é o primeiro centro de Vipassana no Brasil e também o mais antigo da América Latina. A técnica era ensinada conforme S. N. Goenka, na tradição de Sayagyi U Ba Khin. Goenka, de origem indiana e nascido e criado na Birmânia, atual Mianmar, havia aprendido a técnica com U Ba Khin e começado a ensiná-la na Índia em 1969, apresentando-a de forma explicitamente não sectária. Dhamma Santi ↗ S. N. Goenka ↗
A programação era austera. O sino despertava os participantes às 4h, e o dia se estendia até aproximadamente 21h, com cerca de dez horas formais de meditação distribuídas em sessões. O chamado Nobre Silêncio suspendia a comunicação entre os estudantes. O orientador avisou: “Além de não falar, se você olhar nos olhos de um companheiro, além de você estar estragando a sua experiência, vai estragar a experiência da outra pessoa também.” A intenção era produzir a sensação de estar completamente sozinho, mesmo cercado por outras pessoas. Nicchio se recorda de que, no primeiro dia, ao acordar, cruzou sem querer o olhar com um argentino que participava de um programa de um mês. O homem ficou visivelmente irritado; foi então que Nicchio se lembrou do aviso e entendeu a gravidade atribuída à regra.
Nicchio se recorda de um grupo inicial de aproximadamente cem participantes, distribuídos em áreas separadas entre homens e mulheres. Pessoas desistiam logo no início; outras, dentro do dormitório, no meio da noite, tinham crises de choro. Ao longo dos dias, segundo sua memória, o grupo encolheu de forma visível e aproximadamente metade chegou ao fim. No refeitório, o som dos talheres e dos pratos substituía qualquer conversa. Não havia telefone, leitura, escrita, música ou contato com o mundo exterior. Cada dia concluído parecia uma batalha vencida. Próximo à sala de meditação, uma contagem regressiva — dez dias, nove, oito, sete — marcava o caminho até o encerramento.

Embora chamado de curso de dez dias, o período residencial completo ocupou doze dias para Nicchio: um dia de chegada e apresentação, dez dias de prática e um dia de encerramento e despedidas. A disciplina funcionou. Nos últimos dias, sua percepção corporal e sensorial estava amplificada: sentia o ar tocando os poros da pele com uma nitidez incomum.
O aspecto para o qual não se sentiu preparado veio depois. O retiro possuía um protocolo rigoroso para retirar estímulos do mundo, mas, na experiência de Nicchio, não havia uma transição equivalente para devolvê-los. Ao sair, fala, barulho, trânsito e fluxo de informação eram agressivos. A imersão terminou antes que a sensibilidade terminasse. A experiência permaneceu como uma das situações mais extremas de atenção, isolamento voluntário e percepção sensorial que viveu.
Em relação ao Osho, se você assistiu ao documentário da Netflix e tem uma opinião sobre a história controversa dele, sinta-se livre pra debater aqui comigo.