A passagem de Marcelo Nicchio pela PSINet, entre junho de 2000 e maio de 2001, coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história da internet comercial. Mas sua relação com a operação brasileira da companhia havia começado muitos anos antes, ainda na época das BBS.

O que começou como a experiência de um usuário dos primeiros serviços de comunicação digital no Brasil terminaria dentro de uma multinacional que, após uma expansão agressiva, se tornaria um dos casos emblemáticos do estouro da bolha ponto-com.

Registro da sede PSINet/STI em Alphaville.
Sede da PSINet/STI em Alphaville, c. 2000.Abrir imagem original ↗

Da SP Online à STI Internet (1993–1999)

Por volta de 1993, Marcelo Nicchio já era usuário da SP Online, serviço que posteriormente se tornaria STI BBS e, mais tarde, STI Internet. Acompanhou essas transformações como cliente fiel, numa época em que a comunicação digital ainda era restrita a uma comunidade relativamente pequena de entusiastas, muito antes da popularização da internet comercial brasileira.

Em 1994 ou 1995, chegou a visitar as instalações da STI na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. A visita reunia a curiosidade de conhecer pessoalmente a estrutura de um serviço que já utilizava e a tentativa de conseguir patrocínio para seu programa de rádio.

Naquele momento, a relação de Nicchio com a STI era inteiramente pessoal. Não havia nenhuma perspectiva de que, anos depois, ele acabaria trabalhando na mesma operação.

Em 1999, uma coincidência aproximou os dois universos. Alexandre Godoi, tecladista de sua banda, começou a trabalhar na STI Internet, que já estava instalada em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo.

Naquele mesmo ano, a STI seria incorporada a uma das mais ambiciosas operações de expansão do mercado mundial de internet.

A chegada da PSINet ao Brasil

A norte-americana PSINet, uma das pioneiras na oferta comercial de conectividade e infraestrutura de internet, atravessava um período de crescimento acelerado. Sua estratégia internacional combinava investimentos em redes, capacidade de transmissão de dados e aquisições de provedores regionais.

O Brasil tornou-se um dos mercados escolhidos para essa expansão.

Em abril de 1999, a companhia adquiriu os provedores Openlink, no Rio de Janeiro, e Horizontes Internet, em Minas Gerais. Em 24 de maio de 1999, foi anunciada a aquisição da STI Internet, então considerada o quarto maior provedor brasileiro.

A compra da STI ampliou a presença da PSINet em São Paulo e ajudou a consolidar sua posição entre os maiores provedores do país.

Nos meses seguintes, outras empresas regionais seriam incorporadas à operação brasileira, incluindo provedores no Rio de Janeiro, em Brasília, na Bahia e no interior paulista.

A estratégia era clara: adquirir rapidamente infraestrutura, bases de clientes, presença geográfica e participação de mercado, oferecendo uma estrutura nacional integrada aos serviços internacionais da companhia.

Em novembro de 1999, a PSINet anunciou planos de investir US$ 500 milhões em infraestrutura no Brasil, sem incluir nesse montante os recursos destinados a novas aquisições.

Entre os projetos estavam centros de hospedagem de dados, conectividade empresarial, redes corporativas e soluções de comércio eletrônico.

A antiga STI, que Nicchio conhecera como usuário de BBS, agora fazia parte de uma multinacional com ambições globais e investimentos de grande escala.

De usuário a funcionário (2000–2001)

Durante a integração da STI à PSINet, Alexandre Godoi apresentou Nicchio a Rogério Carulli, gerente da área comercial. O contato resultou em sua contratação.

De acordo com os registros de sua carteira de trabalho, Nicchio foi admitido em 1º de junho de 2000, permanecendo na empresa até 2 de maio de 2001, quando pediu demissão.

Sua atividade estava concentrada na comercialização de serviços corporativos de internet e hospedagem. O atendimento era direcionado exclusivamente a empresas, abrangendo produtos como servidores dedicados, hospedagem em servidores compartilhados, acesso corporativo à internet e LPs (linhas privadas de dados), entre outras soluções de conectividade e infraestrutura.

A operação de acesso doméstico havia sido transferida para a Inter.net, empresa criada para atender esse segmento e instalada no mesmo complexo empresarial. A área comercial em que Nicchio trabalhava concentrava-se nos serviços destinados ao mercado corporativo.

O trabalho começou nas instalações de Alphaville, ainda associadas à estrutura da antiga STI.

Morando em Santana, na Zona Norte de São Paulo, Nicchio percorria diariamente a Rodovia Castelo Branco de carro. Nos primeiros meses, cumpria turnos noturnos, incluindo o horário das 18h à meia-noite.

Com a transferência da sede para Tamboré, o trajeto permaneceu praticamente o mesmo, mas os horários de trabalho passaram por mudanças. Inicialmente, atuou das 7h às 13h45. Posteriormente, assumiu o período das 13h45 às 20h, que se tornaria seu horário preferido e mais duradouro na companhia.

O ambiente ainda carregava as expectativas de uma empresa que investira pesadamente em sua expansão. No entanto, os acontecimentos no mercado financeiro começavam a transformar rapidamente aquele cenário.

A bolha ponto-com vista de dentro

Em março de 2000, poucos meses antes da contratação de Nicchio, as ações da PSINet haviam alcançado aproximadamente US$ 60 na Nasdaq, acompanhando o auge da valorização das empresas ligadas à internet.

A companhia vinha de uma trajetória de crescimento acelerado, marcada por aquisições internacionais, investimentos em infraestrutura e expectativas extraordinárias em torno da expansão da economia digital.

Mas o mercado começava a mudar.

O estouro da bolha ponto-com interrompeu o ciclo de valorização das empresas de tecnologia. A PSINet, que havia comprometido recursos elevados em sua expansão, passou a enfrentar dificuldades financeiras crescentes.

Ao longo do segundo semestre de 2000, o valor de suas ações sofreu uma deterioração acentuada. O movimento continuou nos primeiros meses de 2001, até que os papéis passaram a valer apenas alguns centavos.

Dentro da operação brasileira, acompanhar a cotação da companhia na Nasdaq tornou-se parte da rotina dos funcionários.

A queda já não era apenas uma notícia distante, publicada nos jornais ou discutida por analistas financeiros. Seus efeitos começavam a aparecer no cotidiano de quem trabalhava na empresa.

Gráfico da trajetória das ações da PSINet na Nasdaq, entre 1999 e 2001, com destaque para a aquisição da STI em maio de 1999.
PSINet na Nasdaq · 1999–2001 · Ver gráfico em tamanho original ↗

Quando os telefones começaram a silenciar

No início de sua passagem pela PSINet, o atendimento comercial registrava um volume expressivo de ligações.

A companhia investia em publicidade, incluindo outdoors e anúncios em mídia impressa, que contribuíam para gerar demanda pelos serviços de hospedagem e conectividade corporativa.

Os telefones tocavam constantemente. O trabalho envolvia atender empresas interessadas nos produtos e serviços oferecidos pela operação brasileira.

Com o passar dos meses, entretanto, esse movimento começou a diminuir.

Não houve uma interrupção repentina. O fluxo de ligações foi perdendo intensidade gradualmente, acompanhando a deterioração do ambiente comercial e financeiro.

Nos últimos meses da passagem de Nicchio pela empresa, receber uma chamada já era algo raro.

O contraste era marcante: uma estrutura corporativa que havia sido montada para acompanhar a expansão de uma grande companhia internacional operava agora com pouquíssima demanda.

O silêncio dos telefones tornou-se uma das manifestações mais concretas da crise dentro do escritório.

Enquanto a Nasdaq registrava a desvalorização das ações, a rotina comercial mostrava outra face do mesmo processo: a redução progressiva do movimento, a ociosidade e a ausência de novos contatos.

A bolha ponto-com, frequentemente representada por gráficos financeiros e perdas bilionárias, também podia ser percebida naquele ambiente de trabalho, pela simples ausência de chamadas.

A queda de uma gigante

Em 3 de abril de 2001, a Nasdaq suspendeu as negociações das ações da PSINet, cuja última cotação havia ficado próxima de US$ 0,19.

Em 27 de abril, a companhia foi formalmente retirada do mercado Nasdaq.

Nicchio ainda integrava a equipe comercial da PSINet brasileira quando esses acontecimentos ocorreram.

Em 2 de maio de 2001, cinco dias após a deslistagem, encerrou seu vínculo com a empresa por iniciativa própria.

A crise continuaria se aprofundando.

Em 1º de junho de 2001, a matriz norte-americana e diversas subsidiárias nos Estados Unidos recorreram à proteção judicial do Chapter 11, mecanismo da legislação americana destinado à reorganização de empresas endividadas.

No Brasil, a operação ainda tentou encontrar uma alternativa para sua continuidade. Sem conseguir concluir uma venda, a PSINet anunciou o encerramento de suas atividades no país em 20 de agosto de 2001.

Era o fim de uma expansão que, pouco mais de dois anos antes, havia levado a companhia a comprar alguns dos principais provedores brasileiros.

O encerramento de um ciclo

A passagem profissional de Marcelo Nicchio pela PSINet durou onze meses. Sua relação com aquela operação, entretanto, havia começado quase oito anos antes, quando utilizava os serviços da SP Online.

Entre 1993 e 2001, acompanhou a evolução de uma operação pioneira de BBS, sua transformação em provedor comercial, a aquisição pela PSINet e o colapso financeiro da multinacional que pretendia conquistar uma parcela significativa do mercado mundial de internet.

Sua experiência reuniu perspectivas distintas de um mesmo período histórico: a do usuário que participou dos primeiros anos da comunicação digital brasileira e a do profissional que trabalhou na comercialização de infraestrutura e serviços corporativos durante o estouro da bolha ponto-com.

O episódio marcou uma transição importante em sua trajetória, quando a internet deixou de ser apenas um universo de exploração pessoal e passou a integrar também sua vida profissional.

A história da PSINet pode ser contada por meio de aquisições, investimentos bilionários, dívidas e gráficos da Nasdaq. Na experiência de Nicchio, ela também ficou associada a algo muito mais cotidiano: a transformação de um atendimento comercial movimentado em um escritório onde os telefones praticamente deixaram de tocar.